July 30th, 2005

rosas

(no subject)

Deixa que a memória
Seja o lugar que esqueceste
E vem sem voltar


- Jall Sinth Hussein

Fazem hoje quatro anos que comecei a escrever o innersmile. E o que é que eu tenho a dizer sobre isso?
Tenho a dizer que ainda me apetece, muitas vezes, fechar o innersmile no livejournal e ir abrir banca noutro sítio. Mas cada vez mais isso faz cada vez menos sentido. Talvez porque me sinta, neste momento, nesta fase, menos dependente do innersmile, e talvez porque isso eventualmente quererá dizer que nunca como agora ele fez tanto parte de mim.
Tenho a dizer que cada vez escrevo mais para os outros. Muitas vezes acredito nas mentiras que o innersmile me conta, e muitas vezes me alimento das suas quimeras.
Tenho a dizer que muitas vezes a minha memória se confunde com o innersmile. São os filmes, são os livros, os discos, os concertos. Mas são sobretudo pedaços, detalhes, cortes, rasgões, fracturas, da minha vida, que eu encontro e surpreendo quando não ando à procura.
Tenho a dizer que o melhor do innersmile são sempre e ainda e cada vez mais os comentários. E mesmo a falta deles. Há muitos comentários que são meros exercícios narcísicos. É verdade. Espelham a minha vaidade. Gostava que isso não fosse assim, mas não consigo evitar. Mas há muitos comentários que são as pessoas que os escrevem: algumas eu conheço, algumas são minhas amigas, algumas são espectros tão intensos que eu quase que os toco, algumas são uma sombra de alguém. E se o melhor são os comentários, o melhor do melhor são sempre esses encontros com os outros, os cruzamentos. E quando por vezes os outros nos faltam, faz bem saber que também somos feitos dessas faltas, e da falta que nos fazem.
Tenho a dizer que cada vez mais me apetece alcançar assim uma espécie de estado em que o innersmile se esgotasse num exercício de solidão. Mas tenho a dizer que felizmente o innersmile é cada vez menos isso.
Tenho a dizer que não consigo resolver, ainda, nunca?, uma contradição que persegue o innersmile quase desde a primeira entrada: se por um lado fico contente de cada vez que alguém o ‘linka’, nunca consigo evitar o sobressalto de pensar que cada novo link lhe rouba sempre um pouco mais da alma.
Tenho a dizer que, curiosamente, o innersmile é também cada vez mais aquilo que vai perdendo, que vai ficando pelo caminho, daqueles que o vão abandonando. Porque somos sempre feitos também das nossas perdas e das nossas ausências.
Tenho a dizer que gostava, mas não sei se isso é assim, que cada vez menos o innersmile fosse uma afirmação, um statement, um espaço. E que, em vez disso, o innersmile fosse cada vez mais uma anónima existência de papel. Sem papel, claro.