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conto: a diva e o cometa
rosas
innersmile
A DIVA E O COMETA

Sobes a escada para a luz da noite e espera-te a porta entreaberta. Lá dentro há o sofá vermelho, o gelo tilinta nos copos cor de seda, as luzes cintilam nas madeiras, na tábua por polir da mesa abandonada, nas portadas livres das janelas. E tu desfias uma incredulidade sem nome e sem reserva.
Lá fora, há uma cidade distante.
A música dobra-se em ti como se fosse sono, ouves as palavras que proferes como se elas existissem por si, como se pairassem, aéreas e indecifráveis. À tua frente levanta-se na penumbra da sala um objecto voador não identificado.
Quem sabe, a esta hora há homens perplexos que seguem, cegos, o rastro fulgurante e gelado de uma estrela sem rumo.
Espalhas-te, mais tarde, pela superfície das ruas, pelo reflexo brilhante dos postes, das árvores, dos anúncios, dos letreiros luminosos, dos sinais aparentemente sem sentido. És tu que te conduzes, mas não te sentes. Desces como descem os ribeiros pelas encostas, à procura de um rio, à procura de um mar, de um porto, de um barco de luz e silêncio a luzir num estuário amplo, um barco que só tenha horário de partida.
Pelas paredes da cidade, pelos telhados voltados para o alto, pelos passeios húmidos do bafo da noite, entorna-se um pó de vidro, e os transeuntes voltam os seus olhares vazados para o céu, escuro e gasoso, e os lábios trémulos pronunciam um nome. Um nome.
A partir deste lugar, deste momento, o tempo é um bicho de águas profundas, corre parado como as correntes de um oceano salgado, não o sentes, a sua voz a roçar o mostrador dos relógios sem ponteiros é um zumbido surdo, a melodia eléctrica e monocórdica de um motor a estraçalhar a tranquilidade gelada das sombras. À tua volta, um a um, vão surgindo os animais, desprendem-se dos muros das florestas e avançam pela clareira onde levitas, assomam à barriga das tocas, estendem a pata com mansidão sobre a imaculada brancura das toalhas. Os rostos redondos como pontos de interrogação, e das gargantas de cristal chegam-te gargalhadas como nuvens de pó de arroz.
Para lá dos vidros embaciados, um brilho rasga lentamente a abóbada escura. Começa a chover, chove lá fora, mas é uma chuva seca, que transborda para o interior, a água escorre por dentro das grossas gotas, frias e secas como aço.
Estás só, ora não estás, ora sorris, ora desenhas o ar com as mãos, ora suspendes e te comoves, gracejas mais à frente, equilibras-te na berma do teu abismo, deslizas, elevas-te no ar e fazes a tua pirueta, resguardas-te, silencias, ficas outra vez só. As tuas horas são um bailado inconsciente. Falta-te apenas um foco, um fôlego, uma golfada de ar que te faça engasgar e tossir. Até por fim recomeçares a respirar de novo. Ou pela primeira vez.
Atravessas o pátio, e, por um momento, tocas a cidade, és um tu e ela, os teus dedos deslizam pela membrana de orvalho que se vai colando às superfícies de metal, e que te separa do mundo dos vivos, dos que respiram um passo à frente do outro, da festa que todas as noites acende as fogueiras em honra dos astros.
Estás, já, sem o saberes, em queda. Vastos espelhos reproduzem-te e multiplicam-te pelo amplo salão, que se vai enchendo de réplicas tão perfeitas da tua imperfeição. Bebes o veneno em doses pequenas, em goles breves que te deixam a garganta solta para outros gorjeios. Abre-se-te o céu da boca como o ar fresco que paira por cima dos bosques, intenso e azul como as copas das árvores. Rodas. Rodas-te. Bebes do cálice alheio. Afastas-te para deixar passar. Tocas o ar vazio que há entre ti e as estátuas. Sonhas com dias que nunca vão chegar, as manhãs que nunca vão chegar a romper, as horas que nunca te vão estender as palmas solares das mãos para que nelas te aninhes como uma saída.
Quando regressas à madrugada, perduram ainda encostadas aos passeios as palavras que tombaram da estrada da estrela. O céu já voltou a fechar, mas há ainda o resto do pó luminoso dos cristais, que se deposita nos tejadilhos dos automóveis como na fria superfície do interior das tuas pálpebras. Ensaias ainda uns passos. Titubeante. Trôpego. Mudo. E tão verdadeiramente falso, pensas.
Sobes para uma quadriga, ou para um tapete, e voas rio acima. Seguras-te ao sonho. Agarras com força a dobra de um lençol, mas os teus dedos apenas seguram nuvens. Ou penas.
Na abóbada escura e límpida da noite, recortam-se nítidas as estrelas e os astros que permaneceram. Começa a nevar, quando atravessas a porta giratória que te traz de volta ao mostrador dos relógios.
Adormeces por fim já no dia da memória.
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