July 18th, 2005

rosas

je m'appelle jane

O disco que neste momento anda a rodar na minha vida, é Rendez-Vous, da Jane Birkin (obrigado Fernando), já do ano passado, e que reúne duetos da Birkin com alguns vultos da música actual, franceses e não só, normalmente com canções dos próprios convidados. Assim, e entre os mais conhecidos, há duetos com Caetano Veloso (Leãozinho), com o Bryan Ferry, com a Beth Gibbons (não é bem um dueto, a Gibbons só faz coros), com o Brian Molko, com o Paolo Conte, e, entre os franceses, com a Françoise Hardy, o Etienne Daho, entre outros de que eu nunca ouvira falar. É, como não pode deixar de acontecer nestes casos, um disco um pouco desequilibrado, muito dependente da escolha do parceiro e da canção para cada um dos duetos. Mas é um disco de um charme irresistível, que vem da voz da Birkin e da sua maneira de cantar (ou de não cantar, diriam as más-línguas), de um certo ar de modernidade e arrojo ao nível dos arranjos, e da imagem sempre um pouco ingénua e decadente que a Birkin vem cultivando desde... desde sempre, na realidade.
Eu já tinha ouvido o disco há uns meses (obrigado outra vez, Fernando), e tinham-me ficado no ouvido duas ou três canções, entre elas, claro, o Leãozinho, a Canary Canary, e a própria faixa de abertura, que é um gozo divertidíssimo, que brinca com a figura da própria Jane Birkin, e com os nomes dos dois cantores, ela e o cantor Mickey, do grupo Mickey 3D (a canção chama-se Je m’appelle Jane, e o refrão é assim: «Je m'appelle Jane et je t'emmerde / Toi tu ne t'appelles pas Tarzan / Tu t'appelles Mickey je t'emmerde / Moi je ne m'appelle pas Minnie»)
Mas a minha canção preferida do álbum é T'as pas le Droit d'avoir Moins mal que Moi, que a Birkin canta em dueto com Alain Chamfort. Quer dizer, a canção é bonita, agradável, tem uma batida interessante, assim uma balada um pouco acelerada. Mas tem sobretudo uma letra espantosa, daquelas que um tipo quase que daria um braço (o esquerdo, vá lá, que eu não sou canhoto) para ter escrito. Claro que ajuda a este meu entusiasmo ser uma letra daquelas que eu gosto, a meio caminho entre a dor-de-corno e o ciúme febril, triste mas ao mesmo tempo raivosa, mas tudo apresentado com um tom muito calmo, muito racional. Na verdade, o seu ar ‘matter-of-fact’ é que torna a letra ainda mais poderosa e inquietante. A letra fica aí; ouçam-na se puderem.

T'as pas le Droit d'avoir Moins mal que Moi

T'as pas le droit d'avoir moins mal que moi
Si j'ai mal c'est pas normal que toi tu n'aies pas mal
T'as pas le droit d'avoir moins mal que moi
Ta douleur à ma douleur se doit d'être égale
Si j'verse cent une gouttes de mon sang
Et que tu n'en verses que cent, c'est blessant
T'as pas le droit alors que j' déguste
De pas souffrir c'est trop injuste
T'as pas le droit d'avoir moins mal que moi
Si j'ai mal c'est pas normal que toi tu n'aies pas mal
T'as pas le droit d'avoir moins mal que moi
Si tu pleures pas comme je pleure je fais un scandale
Pour chaque larme qui coule sur ma joue
J'veux la copie exacte comme d'un bijou
T'as pas le droit, à l'heure où j'en bave
D'être autre chose qu'une épave
T'as pas le droit d'avoir moins mal que moi
Si j'ai mal c'est pas normal que toi tu n'aies pas mal
T'as pas le droit d'avoir moins mal que moi
S' t'endures pas 'que j'endure comprends que je râle
On a toujours partagé tout
Mon angoisse prends-en une tasse, tea for two
T'as pas le droit, alors que j' déprime
D'être ailleurs qu'au bord de l'abîme