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crimen ferpecto
rosas
innersmile
Foi o primeiro filme de Alex de la Iglesia que vi, e fiquei impressionadíssimo: Crimen Ferpecto é uma comédia sensacional, sem ceder um milímetro que seja na lógica do thriller e do gore, e o resultado é talvez a mais inspirada comédia negra das últimas décadas. E a questão é que é muito negra e muito cómica: não há quase linha de diálogo ou sequência que não ande ali a bordejar o hilariante, e não é sem um certo arrepio que descobrimos que o filme, a certa altura, vai descambar para uma atmosfera negríssima. Claro, negro brilhante e luminosos, já que o filme se passa quase todo dentro de uns armazéns totalmente El Corte Inglês, e espelha e vive daquela atmosfera muito artificial que as grandes superfícies comerciais têm de que tudo é possível. E é destas contradições todas, destes contrastes muito marcados, entre uma atmosfera muito colorida e com um certo toque almodovariano, e o destino negro e sangrento das personagens que se joga muito do gozo do filme de Iglesias.
Muito desse mérito repousa, também, em Guillermo Toledo, que dá um sopro de vida essencial a uma personagem que, de resto, é quase totalmente caricatural. E isto parece-me coisa assaz difícil, fazer com que nós os espectadores acreditemos na verdade daquela personagem irreal, excessiva. E, mais, que nos deixemos seduzir pelo seu magnetismo de pacotilha, pelo seu ar um pouco ridículo de macho latino em final de estação.
O próprio título do filme é um achado genial, ao condensar num erro gramatical toda a essência narrativa do filme. Enfim, um filme muito divertido, daqueles que dá muito gozo ver, enquanto obra de cinema, e que comprova que a Espanha é já uma das capitais mundiais do cinema. Bravo.
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e mau era que já...
rosas
innersmile
Absolutamente brilhante.
A Sra. Teresa, mulher do João da Esquina, acabou de se lembrar que o Daniel, o filho médico do José das Dornas, seria um excelente partido para a Chica, a filha de ambos, moça trigueira de 21 anos. O médico tinha ido lá a casa na véspera ver a rapariga, que estava mais aborrecida do que doente, entretiveram-se a conversar, e prometera voltar no dia seguinte. A Sra. Teresa expõe a sua ideia ao marido, e trocam o seguinte diálogo:

«Passados momentos, murmurou o homem:
- Olha que não era mau, se…
- Vê lá então agora…
- O pior é…
- Pois sim, eu não digo que…
- Mas eles já…? Sim…?
- Não, porém…
- Então quem sabe se…
- Isto é… até certo ponto…
- É verdade que também…
- Sim, pois claro, e…
- E mau era que já…
- Com certeza… demais…
- Agora o que é preciso, é…
- Isso com o tempo… bem vês que…»


Está ou não fantástico?! Caraças, como o Júlio Dinis consegue dizer absolutamente tudo o que há a dizer numa situação destas entre aqueles pais sem nunca tocar ou referir o assunto. Delicioso.
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