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os pupilos do sr. júlio
rosas
innersmile
«Eram dois estes filhos - Pedro e Daniel. Pedro, que era o mais velho, não podia negar a paternidade. Ver o pai era vê-lo a ele; a mesma expressão de franqueza no rosto, a mesma robustez de compleição, a mesma excelência de musculatura, o mesmo tipo, apenas um pouco mais elegante, porque a idade não viera ainda curvatura de certos contornos e ampliar-lhe as dimensões transversais, como já no pai acontecia. Conservava-se ainda correcto aquele vivo exemplar do Hércules escultural.
Pedro era, de fato, o tipo de beleza masculina, como a compreendiam os antigos. O gosto moderno tem-se modificado, ao que parece, exigindo nos seus tipos de adopção o que quer que seja de franzino e delicado, que não foi por certo o característico dos mais perfeitos homens de outras eras.
(...)
Daniel já tinha condições físicas e morais muito diferentes. Era o avesso do irmão e por isso incapaz de tomar o mesmo rumo de vida.
Possuía uma constituição quase de mulher. Era alvo e louro, de voz efeminada, mãos estreitas e saúde vacilante.
O sangue materno girava-lhe mais abundante nas veias, do que o sangue cheio de força e vida, ao qual José das Dornas e Pedro deviam aquela invejável construção.»


É assim que Júlio Dinis caracteriza os dois irmão, personagens centrais do romance, logo no capítulo inicial de As Pupilas do Senhor Reitor. Hummm, não sei... Mas estou desconfiado: em duas penadas, JD quase que esgota o universo homo-erótico masculino: machões e bichas! Não é tanto a ‘robustez da compleição’ ou a excelência da musculatura’; agora aquele ‘Hércules escultural’... Ó Júlio, onde é que tu andavas com a cabeça?! Não sei se estão a ver, mas quando a gente diz que uma gaja ou um gajo é ‘escultural’ aquilo implica logo um transtornozinho, um pensamentozinho mais concupiscente, mais lascivo. E depois ‘o tipo de beleza masculina, como a compreendiam os antigo’. Só falta dizer os antigos gregos! Quanto ao Daniel, estamos conversados: ‘alvo e louro, de voz efeminada, mãos estreitas’; está tirado o retrato. Não só me parece que o Júlio Dinis não era um tipo de confiança, que tinha aquilo que se chama um piquinho a azedo, mas também me parece, pela forma mais deslumbrada com que se demora na ‘musculatura’ do Pedro, que era mais dado ao estilo ‘mucho macho’.

Tirando este outing do pobre e insuspeito Júlio Dinis, a verdade é que estou a gostar bastante do livro, está a ser uma leitura muito divertida. O tipo era um mestre da narrativa, uma capacidade incrível de criar ambientes e de fazer o enredo fluir, sempre agarrando a atenção do espectador. Claro que, de certa forma, aquele que ali está é um Portugal que já não existe, e até nem sei se alguma vez terá existido com aquele bucolismo e joie de vivre, mas mesmo aí é possível encontrar traços do que é a arte de ser português, que perduram até aos dias de hoje, cerca de século e meio depois. Mas é óbvio perceber porque é que Júlio Dinis foi um autor muito popular no seu tempo, aquela leitura é mesmo muito divertida, com um elevado nível de entretenimento. Claro que hoje em dia a leitura já não é o único, e nem sequer o principal meio de entretenimento popular, há-os muitos e muito mais poderosos e viciantes. Mas mesmo assim, é notável que um romance como As Pupilas do Senhor Reitor tenha conseguido manter intactas a vivacidade e o interesse.
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