?

Log in

No account? Create an account

conto: chez toi
rosas
innersmile
CHEZ TOI

para o Sr. Stockler

Talvez sejam onze e meia de uma noite de início de verão e tu andes a passear pelo molhe sul da Barra de Aveiro.
Para trás ficou o bulício dos banhistas na enchente dos cafés, e, molhe fora em direcção ao mar, cruzas-te com ocasionais casais de namorados ou grupos desgarrados de rapazes e raparigas. Há uma névoa ligeira que torna ainda mais frágil a luz das estrelas, e o luar é apenas um minguado rasto de brilho. Há um certo ponto do teu caminho em que se cala o ruído que vem das ruas, a música e as vozes, e ficas sozinho com o ar fresco que te seca o corpo, e te faz sentir mais leve e desprotegido. Caminhas noite dentro e vais reparando nos pescadores que, à luz de um fio de penumbra, consegues divisar lá em baixo, encavalitados nas pedras que sustentam o molhe. Um dos pescadores traz uma lanterna presa à cabeça, não sabes como, não há luz suficiente para isso, mas percebes que ele traz uma lanterna acesa presa à cabeça e conforme salta de pedra em pedra, a roupa clara tão levemente iluminada que lhe dá a aparência de um espectro fugidio, vai iluminando pequenos círculos de luz em seu redor. De vez em quando, o foco da lanterna afasta-se da irregularidade das pedras do molhe e volta-se para as águas escuras. De uma dessas vezes, parece-te aparecer alguma coisa nesse difuso círculo iluminado do espelho negro. Fincas os olhos, tentando ver por entre o breu. E distingues claramente a capa branca de um livro, ondulando na maré serena. Percebes que o livro é apenas o primeiro de um monte, como se alguém tivesse abandonado uma pilha de livros e cadernos em cima de uma mesa. Mas apenas o primeiro, o livro de capa branca, se recorta com nitidez. Consegues ver distintamente as letras bem recortadas do título. Mas quando te debruças para fora do passeio do molhe e estendes o pescoço para conseguires ler o título do livro, o pescador volta-se para o lado e prossegue o seu caminho saltitando pelas pedras irregulares.

Talvez estejas ao volante de um pequeno Buick vermelho, modelo desportivo, e pelo vidro do pára-brisas vão desfilando os nomes das pequenas cidades que vais cruzando.
Por pequenas estradas estaduais, sobes o vale do Mississipi. Alma e o jardim pendurado no alto de um penhasco, de onde se vêem as barcaças largas que cruzam o rio. Um homem aproxima-se e pergunta-te de onde és. Quer saber se a tua terra é muito religiosa, e parece ficar satisfeito com a resposta. Afasta-se para ir ter com os amigos, e percebes, pelos gestos, que falam de ti. Wabasha, a cidade dos grumpy old men, uma ponte de ferro atravessando o rio, e atravessada por enormes camiões de grelha reluzente como as dentaduras de fogosos alazões. Sais, sem querer, da estadual e perdes-te no emaranhado das ruas desertas da pequena cidade. Passas num cruzamento onde fica um hotel onde uma vez jantaste na companhia de desconhecidos, que, caía já a noite, te foram mostrar a meia dúzia de hectares de terra que tinham herdado de um antepassado obscuro, e onde planeavam construir uma casa de cuja varanda se visse, e ouvisse, o rio, gigante, lá em baixo. Lake City, onde paras o carro para tentar ver as águias majestosas que dão rosto a um país, mas onde encontras, ao invés, um restaurante Subway com os melhores biscoitos e o melhor café que já alguma vez provaste. Retomas a estrada, e afastas-te do rio. Está na hora de regressar a casa, pensas. Diriges para norte, em direcção a este. Atravessas a pequena povoação de Durand (população 2000), e quando paras no vermelho de um semáforo, reparas que quatro galinhas de louça, pintadas de branco com pintas pretas e as cristas muito vermelhas, começam a cruzar a passadeira à tua frente. A que segue à frente é maior que as três restantes, e elas parece que deslizam sem chegarem a tocar o chão. Não têm pés, e o seu tronco bojudo parece-se com a almofada de ar de um hovercraft, e é isso que as faz mover. Não viram a cabeça para ti, não como se te ignorassem, mas como se quisessem que tu pensasses que elas estavam a fingir que te ignoravam, com o seu porte altivo e o olhar sempre voltado para a frente. No momento em que as galinhas desaparecem do lado do passeio, a luz do semáforo muda, mas em vez de ficar verde ou amarela, desenrola-se do cabo que sustenta o sinal um painel de cortiça, ao qual, presos com alfinetes azuis, estão recortes de jornais, postais, contas por pagar, desenhos. Atrás do painel de avisos há um quarto, e tu reparas que está alguém deitado na cama, só se vê um pedaço pequeno, aliás, nem se vê um pedaço, apenas uma linha, a linha curva de um ombro, a fita estreita de um antebraço deitado por debaixo do tronco e a mancha escura do cabelo. No momento em que te debruças para a frente, quase batendo com a testa no vidro do pára-brisas, para tentar descortinar mais acerca da figura deitada, um camião parado atrás de ti no semáforo toca furiosamente a buzina, e tu arrancas.

Talvez seja de madrugada e tu estejas sentado em frente ao cintilar brilhante de um monitor de computador.
O sol vai pegando labaredas ao ar frio da noite e aos poucos a luz do dia entra pelas frinchas da janela do quarto onde estás sentado em frente ao computador. Estás há horas na mesma posição, os teus olhos são globos de ardor e lágrimas, mas, à tua frente, o ecrã do computador permanece imaculadamente vazio. Não sentes sequer desespero. Sentes-te como o leito seco de um rio que já nem guarda memória das águas frondosas que corriam entre as suas águas. Todas as imensas horas da madrugada, o ruído da noite vibrou nos teus ouvidos, e tu aceitaste-o como música, a melhor alternativa à ensurdecedora ausência de palavras que são os teus dedos. Tu pressentes que há um texto que se inscreve no brilho cintilante do monitor, mas é invisível à tua memória, não escorre para os teus dedos feito linhas e caracteres, as teclas do teclado estão inevitavelmente imóveis. E então tu sentes uma enorme e profunda calma, uma serenidade tão grande que num ponto da tua testa equidistante entre os teus olhos, desdobra-se um imenso prado verde, um prado que desce uma encosta suave, e lá ao fundo chama-te um curso de água, uma corrente mansinha e saltitante que te chama como uma promessa e tu desces pelo prado, minúsculas pétalas de margaridas esvoaçam leves ao teu redor, o teu corpo é uma almofada de ar que desliza, empurrada apenas pelo seu peso quase nulo e pela brisa que provoca o bater das asas dos insectos. Com um marulhar de chapa quase inaudível, tu entras na água, flutuas ao sabor da corrente, que te leva rio abaixo como se estivesses dormindo. Sentes o teu tronco envolto em água, água fresca como o primeiro copo de água que mata a sede, e estás irreprimivelmente feliz, és água por fora e água por dentro, e nunca te sentiste tão confortável e aconchegado, os teus membros são extensões da água, as tuas pernas são a cauda carnuda de uma sereia, os teus braços são barbatanas que refulgem ao primeiro raio de sol da manhã, os teus cabelos são limos viscosos e suaves como seda, os teus olhos são berlindes marinhos, e os teus lábios bebem toda a água que os teus pulmões suportam. À tua frente, no meio do caudal do rio, apresenta-se aquilo que te parece um altar. Ao centro há um tabuleiro de xadrez. Há um sino sereno e ferroso como uma âncora. Há duas imagens de santas, azuis como a cor das águas, as vestes esvoaçantes como a corrente. Há um copo de berlindes, que são belos e coloridos como os olhos que os cegos têm quando sonham. Há um pequeno buda de louça, branco como o teu passado, que te sussurra ao ouvido canções de embalar e rimas infantis. Há uma moldura onde estão duas fotografias tuas: numa está sempre a envelhecer, na outra rejuvenesces continuamente. Há um brinquedo de madeira onde estão inscritas as impressões digitais dos dedos da tua mão de quando eras criança. Atrás do altar há um espelho, e tu percebes que o espelho reflecte alguém que não és tu talvez alguém que esteja atrás de ti e se debruce para a frente, enlaçando com os braços o teu tronco. Numa das mãos segura um maço de folhas todas escritas, umas impressas, outras manuscritas, e tu sorris porque percebes que te trazem o texto que estava inscrito no monitor em branco, de cintilante brilho, do computador. Na primeira página, em letras maiúsculas, o título do livro. Que tu vais começar a ler quando o leito do rio se transforma numa cascata imponente e profunda e tu sentes o teu corpo a ser sugado para o vazio.

Abro os olhos e percebo que há alguma coisa de diferente. A brancura do tecto. Como se fosse uma pele diferente, as manchas mudaram de posição e forma. Ou como se olhasse pela primeira vez uma nova face da lua, com novos mares e novas montanhas, com novas sombras. O tecto é branco, liso e quase intacto, mas são essas manchas, próprias do envelhecimento, da usura do tempo, que mudaram. Tenho a certeza, baseada num pressentimento, de que alguma coisa mudou, de que tudo mudou. O ar à minha volta, o ar que respiro, é estranho. Outro. Levanto-me. Não reconheço o quarto onde estou, não sei que vista se alcança da janela cerrada, ou que mundo está para lá da porta. Estas paredes são-me completamente estranhas, a roupa atirada sem cuidado para cima de uma cadeira, um par de sapatilhas tombadas uma por cima da outra, descalçadas à pressa sem a ajuda das mãos. Há, no entanto, uma vaga e muito ténue impressão de familiaridade, como se as roupas, os objectos, as estampas penduradas de forma descuidada na parede, não sendo minhas, pudessem sê-lo. Irresistivelmente, aproximo-me de uma enorme estante de livros. Não li a maior parte, mas, correndo as lombadas, reconheço-os quase todos. Poderiam ser os livros que eu deixo acumular dentro dos sacos de plástico das lojas onde os compro, à espera de vez para serem lidos. Sinto um calafrio: os livros que eu deixava acumular, quando acordava e reconhecia as manchas do tecto, as manchas velhas e familiares como a pele manchada das minhas mãos. A pele das minhas mãos. Olho para elas com horror, a pele das minhas mãos está lisa e elástica como eu já não me lembrava de que uma vez tinham sido. Estão maiores as minhas mãos, mais largas, seguram melhor e com maior firmeza a maçaneta da porta. Esta maçaneta desta porta, diferente da que eu segurei a vida inteira para abrir a porta do meu quarto depois de acordar. Hesito. Abro, não abro. Sou tomado pelo medo, um medo irracional, a certeza aguda e clarividente de que mudou alguma coisa, mas uma mudança radical, absoluta. Medonha, mas ao mesmo tempo fascinante. Sei que se abrir a porta, se sair para o mundo que se estende para além dela, este meu novo e diferente acordar será irreversível. Por um instante, penso na hipótese de estar a sonhar. Acontece-me algumas vezes, eu conseguir desacreditar o absurdo de um sonho, ao ponto de tomar consciência de que estou a sonhar, e acordar em seguida. Estou a sonhar, é isso, repito para mim próprio. Este absurdo, esta loucura, só pode ser um sonho. Mas no momento em que repito em voz alta que estou a viver um sonho, rodo a maçaneta da porta, que se abre para um corredor. A luz fere-me os olhos, que fecho com força, para logo os abrir em seguida. A luz é diferente. É uma luz nova, ampla, que inunda por completo o corredor à minha frente. Pela primeira vez forma-se no meu cérebro uma palavra: austral. É uma luz austral. Aliás, o ar que eu sentia diferente é austral. Um ar quente e húmido, sempre à beira de ser mais pesado do que leve, mas ainda assim para cá dessa fronteira que torna irrespiráveis certos lugares. Austral como a luz. A luz austral parece ter densidade, como se fosse palpável. Uma luz que se atravessa, que se toca com as mãos. Avanço pelo corredor. Dou uma canelada numa mala de madeira, das que se usavam antigamente para guardar a roupa fora da estação, com sacos de alfazema e remédio contra a traça. Em cima da mala há objectos espalhados, apercebo-me que com algum método de arrumação: um tabuleiro de xadrez com as peças colocadas na posição de saída, estátuas de santas, um pequeno sino de ferro, berlindes de vidro colorido num copo, um buda de louça, duas fotografias numa moldura, um brinquedo de madeira. Pendurado na parede por cima da mala, há um espelho. O meu coração começa a bater desenfreadamente, com a expectativa de me ver ao espelho. O coração bate cada vez mais, consigo ouvi-lo bater nos ouvidos, nas têmporas, nas veias e nas artérias do corpo todo. Só há uma forma de ultrapassar este ataque de pânico, que é passar rapidamente em frente ao espelho sem olhar para ele. É isso que faço, e paro uns momentos a recuperar o fôlego e a força nas pernas. Prossigo no corredor, no parapeito da janela que ilumina o corredor, há quatro galinhas de louça, maior a da frente, pequenas as restantes, pintadas de branco, com pintas negras e as cristas vermelhas. A luz fortíssima encandeia-me, quando tento olhar através do vidro. Apenas consigo distinguir os contornos a perder de vista de uma cidade. Mais à frente no corredor há um painel de avisos ao qual, presos com alfinetes azuis, estão recortes de jornais, postais, contas por pagar, desenhos. Atrás do painel, deparo com a porta aberta de um quarto. Há alguém deitado na cama. Um homem, a adivinhar pelo ombro despido e pela sombra crespa do cabelo. Apetece-me entrar no quarto, aproximar-me do corpo adormecido, voltá-lo para admirar o rosto que adivinho belo. Em vez disso, prossigo pelo corredor até entrar numa sala ampla e muito iluminada. No centro do compartimento há uma mesa onde está uma pequena pilha de livros e cadernos. Pego no de cima, de capa branca, desfolho-o e começo a ler. Todas as palavras, as frases, os parágrafos, são-me familiares, como se tivesse sido eu a escrevê-las. Volto as páginas, avanço os capítulos, tudo faz sentido. Sobretudo a história: é a narrativa que eu ando há tanto tempo a tentar escrever, cujos contornos estão claramente definidos na minha cabeça, mas que não tenho conseguido transformar em texto, apesar das noites e das madrugadas sentado, em desespero, em frente ao computador. Aqui está ele, um romance pronto, completo, editado em livro, o título, que eu já tinha definido, recortado nas letras maiúsculas da capa. Apenas o nome do autor não é o meu. Não o reconheço, não é o de nenhum dos muitos escritores que conheço. É, aliás, um nome que não me serve, que nem sequer consigo ler distintamente. Volto a contracapa e, junto de uma pequena sinopse do romance, um texto muito curto que eu tinha enviado a um editor quando me propus escrever o livro, a biografia estranha correspondente ao nome extravagante do seu autor. Mas, encimando a mancha do texto, um pequeno retrato a preto e branco da minha cara. Um retrato já antigo, é certo, mas o meu retrato. Aquele ali, dando rosto a um nome alheio, sou inequivocamente eu. Largo o livro em cima da mesa e regresso, em passada rápida, pelo corredor. Passo pelo quarto da porta entreaberta, onde a cama está agora vazia. Chego junto ao espelho por cima da mala, no corredor, e volto-me. Contemplo, então, e pela primeira vez, o meu rosto.
Tags: