July 11th, 2005

rosas

war of the worlds

Sou fã empedernido do cinema de Spielberg, e War of The Worlds proporcionou-me mais duas horinhas de gozo cinéfilo. O que eu mais gosto no cinema de Spielberg é a sua capacidade de contar uma história, o modo como a narrativa, sendo tão especificamente cinematográfica (quer na sintaxe quer na morfologia), flui e progride com aquela ligeireza de quem conta uma história de encantar. Nos seus filmes não há (ou há muito pouca) ganga, não há gordura, tudo é economia e eficácia.
Esta versão de WoTW é um filme interessante porque, talvez por ser um projecto que se adivinha um pouco apressado, deixa à vista muitas costuras; aquilo que nos outros filmes do realizador se organiza num produto final irrepreensível, aqui está à vista. Por exemplo, a fixação programática de todo o cinema de Spielberg em torno do tema da família (nem que seja, como em The Terminal, pela sua ausência, no entanto só aparente), numa espécie de busca de sentido para o lugar da família num tipo de sociedade em que os diversos membros da família tendem para a desagregação, e onde só no amor dependente das crianças parece resistir a necessidade de coesão dos (novos) núcleos familiares. Se este tema está presente em todo o cinema de Spielberg é forçoso reconhecer que em WoTW ele aparece sem o apuro narrativo final das outras obras do realizador, com pouca subtileza e, na cena final, mesmo com pouca verosimilhança.
Outra das particularidades deste filme é a forma mais ou menos óbvia como Spielberg integra na narrativa muitas das reflexões, mas sobretudo das perplexidades, da América pós 11 de Setembro. Não só a forma como são tratados em termos de imagem os efeitos da destruição (a imagem de Cruise quando chega a casa depois do ataque inicial, coberto de pó, remete inequivocamente para o aspecto dos sobreviventes ao desmoronar das torres do WTC), mas também no olhar surpreendido para o alto de todos os figurantes do filme, que mimetiza o olhar incrédulo dos nova-iorquinos a olharem para os aviões a entrarem pelo alto dos arranha-céus adentro. Se não for forçar muito as coisas, a própria noção de que ‘o mal’, assim considerado em abstracto, é alguma coisa que já está entranhado em nós, que já habita este nosso solo há milhões de anos, não pode deixar de ter o seu valor metafórico no contexto político do filme.
Há coisas muito interessantes na maneira como Spielberg constrói o filme. Desde logo o facto de a câmara nunca abandonar o plano dos protagonistas, partilhando com eles a sensação de ameaça daquilo que vem do alto e que nunca conseguimos muito bem perceber o que é. Salvo alguns planos de enquadramento, é quase sempre de baixo para cima que vimos os famosos Tripods. Por outro lado, o filme é sempre muito parco na informação que nos vai dando acerca do que esta a acontecer, ajudando a criar a sensação de confusão e descontrolo reinante. Por exemplo, vemos os militares em acção mas nunca percebemos o que é que eles estão a fazer, qual é o sentido da sua intervenção. Com este tipo de soluções, Spielberg focaliza a atenção do filme, menos na espectaculosidade das cenas, mas sobretudo na construção de um clima de medo e insegurança (outro aspecto que remete para o cenário pós 11 de Setembro).
A própria personagem de Ray, desempenhada por Cruise, é interessante. Estamos já habituados ao tipo de heróis de Spielberg, que são, quase sempre (há sempre Harrison Ford, mas o projecto Indiana Jones é demasiado específico), pessoas normais que têm de resolver situações maiores, que as ultrapassam, de forma a poderem voltar a por um pouco de ordem nas suas vidas pessoais. Ray passa a maior parte do tempo em fuga, a fugir declaradamente ao encontro com o perigo (e à glória dos heróis que se seguiria a esse encontro), a única coisa que pretende é por a salvo os filhos, é proteger a filha de todas as ameaças, porque (outra das características do cinema de Spielberg) só através da remissão dessa ameaça pode encontrar a salvação da sua vida desarticulada e disfuncional. Infelizmente, Tom Cruise não me pareceu à altura da personagem (só me ocorreu o que um Richard Dreyfuss, só para não sair da referência ao cinema de Spielberg, conseguiria fazer); o actor é cada vez mais limitado na sua expressão dramática, e só o salva uma energia muito física que, apesar de tudo, vai bem à personagem.
Finalmente, outro aspecto que me parece importante realçar, e que contribui muito para o prazer de ver o cinema de Spielberg, é a cinefilia evidente com que o realizador preenche os seus filmes. Spielberg é, sempre foi, um realizador de cinema que se reclama de uma certa tradição do cinema clássico de Hollywood, e por isso os seus filmes estão sempre muito imbuídos de referências, e mesmo citações, a filmes clássicos dos estúdios norte-americanos. Neste caso, à tradição do cinema de ficção científica, sobretudo de um certo look (por exemplo, na ‘marcialização’ da Terra, muito à la Roger Corman) dos filmes do género dos anos 50 e 60. Uma das evidências, neste WoTW, é o facto de o texto do início e do final (lido pela voz off por excelência de Morgan Freeman) ser o mesmo (com as adaptações adequadas ao enquadramento temporal, claro) que foi lido por Orson Welles na sua mítica realização radiofónica do clássico de H.G. Wells. Mas claro que as referências e as citações mais óbvias deste filme são para os outros filmes do próprio Spielberg. Com efeito, WoTW parecer querer formar (se bem que eu duvide que o consiga por inteiro) uma trilogia com os outros dois filmes do realizador de temática extra-terrestre, ou seja, ET e os Close Encounters. Muito do filme se joga ou no contraponto ou mesmo na citação directa desses dois filmes anteriores. Por exemplo, a primeira vez, na verdade todas as vezes que os Tripods tocavam a ‘buzina’, era impossível não ouvir nesse som o da nave-mãe de CE. Por outro lado, o filme resgata muito do ambiente de Jurassic Park para a construção dos Tripods e dos aliens, e a cena na cave do resistente (interpretado por um alucinado e assustador Tim Robbins) parece ser uma reconstrução quase passo a passo da cena de JP passada na sala do laboratório.