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(no subject)
rosas
innersmile
Quinta-feira passada foi um dia complicadíssimo. Sé não digo que foi um dos piores dias da minha vida, porque uma amiga minha proibiu-me de o dizer, com o argumento de que se não fiquei doente nem perdi nenhum ente querido, então é porque não foi um dia completamente mau.
Mas andou por lá perto. Foi sobretudo um dia de muitas emoções negativas, daqueles em que parece que tudo de mau que pode acontecer acontece: morreu a mãe de um amigo meu, e eu no seu desespero solitário vi reflectido o meu. Profissionalmente, provei a taça do veneno, uma daquelas situações em que a minha profissão revelou a sua face pior, e desta vez eu contei-me entre o número de vítimas. E o pior é que o drama se vai desenrolando nas nossas costas e, quando damos por ela, a faca já está bem entalada entre as costelas.
Uma das coisas muito más que aconteceu na quinta-feira foi o ataque bombista em Londres: por ser uma das minhas cidades, por ter lá muitos amigos. Porque nas costas dos outros vemos as nossas, e, no terrorismo, todos somos alvos e, por isso, todos somos vítimas. No meio do frenesim angustiante que foi o meu dia, ia deitando espreitadelas na net para tentar perceber o que se estava a passar.
Numa dessas consultas aos jornais on-line, e quando se confirmou que se tratava de um ataque terrorista, lembrei-me do famoso discurso de Churchill «we shall never surrender»: mais uma vez os britânicos estavam debaixo da mira do horror, como quando Churchill proferiu, em 1940, esse discurso, e, mais uma vez, eu tinha a certeza, iriam reagir com determinação e tranquilidade a tamanha adversidade. Achei que, não tendo cabeça e disponibilidade para comentar com mais profundidade o que estava a acontecer em Londres, socorrer-me dessa frase seria a melhor forma de expressar a minha solidariedade e o meu sentimento para com os londrinos, e, por isso, procurei o trecho do discurso, e pu-lo no innersmile.
Durante a tarde, apercebi-me de que estava a haver uma discussão das bravas na página de comentários dessa entrada, e tive pena de não conseguir participar na discussão: precisava de tranquilidade para escrever qualquer coisa de jeito (não sei escrever à pressa), para conseguir alinhavar uma linha de pensamento com alguma validade.
Incomodou-me, no entanto, que alguém pudesse ler nessa citação, ou melhor, no facto de eu ter recorrido a ela, algum tipo de declaração de guerra. De nacionalidades (nós contra os árabes), de religiões (nós contra os muçulmanos) ou de civilizações (nós contra o islamismo). Na verdade, e tal como acontecia em 1940 quando Churchill discursou, só há aqui uma única guerra, e é contra essa que «we shall never surrender»: a do racionalismo humanista contra a barbárie. O que está errado nos ataques bombistas, não é eles serem perpetrados por árabes, por muçulmanos ou por islamitas. Até porque, pelo menos nalguns casos, os terroristas hão-de ser tão europeus como nós (digo eu, que até nem nasci na Europa). O que está errado nos ataques bombistas, em Londres como em Oklahoma, em Madrid como em Bagdad, em Nova Iorque como no Afganistão, é que eles pretendem única e exclusivamente vergar-nos pelo medo. Pelo terror. Pelo horror. Porquê? Porque o medo é inimigo da liberdade. Eu quando tenho medo, sou menos livre. Eu quando tenho medo, fico fraco e estou disposto a negociar a minha dignidade em troca do levantamento da ameaça. Eu quando tenho medo, torno-me vulnerável à chantagem.
Por isso, mantenho intacta a citação de Churchill como forma de homenagear mais estes cidadãos do mundo que foram vítimas do horror. Não porque ache que estamos a travar uma cruzada contra os infiéis (uma das coisas que aprendi na minha recente viagem ao Egipto, é que da perspectiva oposta, os infiéis somos nós!) Não porque ache que há uma Ilha que, qual aldeia gaulesa, deve resistir estoicamente ao ataque das legiões (e é curioso, também nos livros do Astérix, os bons eram os bárbaros). Mas porque, mais do que a ilha em concreto de que falava Churchill, o que está em causa, o que devemos defender, sem rendição, nas praias como nos montes, são as pequenas Ilhas, onde quer que se localizem na geografia dos continentes e das culturas, onde os homens libertados do medo possam ser mais livres e mais dignos. Maiores.