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o fim do ballet gulbenkian
rosas
innersmile
Dia tristíssimo para a cultura portuguesa: ouvi há pouco na rádio que a Fundação Gulbenkian anunciou em comunicado a extinção do Ballet Gulbenkian, com a suspensão imediata de todas as actividades.
A primeira vez que vi o BG foi igualmente a primeira vez que vi um espectáculo de ballet, em finais dos anos 60, quando o pavilhão do Ferroviário de Nampula se transformou para acolher a digressão pelo ‘ultramar’ da companhia. Já em Coimbra, o BG foi durante muitos anos um dos raros oásis no deserto cultural da cidade. Foi com o BG que aprendi a gostar de dança contemporânea. Foi com o BG que vi coreografias dos maiores coreógrafos, portugueses e estrangeiros. O BG era assim uma espécie de património nosso, fazia parte da nossa bagagem, do nosso percurso de espectadores e amantes da cultura, em especial da dança.
Não faço ideia das razões que levaram a Fundação a esta decisão. Não faço ideia se as repercussões desta decisão no panorama da dança nacional serão muito graves ou apenas sérias. Em Portugal há muitos coreógrafos e muitas companhias e muitos bailarinos a trabalhar. Suponho, ou pelo menos espero, que assim continuem. E que a dança em Portugal consiga ultrapassar esta infelicidade. E que tudo o que haja a lamentar deste cair do pano do BG seja mesmo a melancolia de algumas das nossas melhores recordações.

londres, 1984
rosas
innersmile
A minha mãe encontrou, na secretária do meu antigo quarto, três folhas pautadas tamanho A4, escritas com um diário dos três primeiros dias em Londres, quando fui para lá, em 1984. Não fazia a mínima ideia de que tinha feito esse registo pormenorizado e um pouco ingénuo, que, provavelmente, nunca mais tinha lido desde que o escrevi, há mais de vinte anos. Corrigi uns erros de ortografia, abrevio os nomes para ‘proteger os inocentes’, e o resto vai tal e qual como está lá escrito.

«12-3-84
Saída de Lisboa no voo TP450 da Tap-Air Portugal às 10.15, com sol, céu limpo e temperatura agradável. A visibilidade para terra sempre foi magnífica até ao norte da península, onde uma espessa camada de nuvens impediu que se visse alguma coisa. A bordo, um ‘olhos rasgados’ao nosso lado, tinha ido ver o Rallie de Portugal: talvez por gostar da Lancia, vinha mal disposto e era de poucas falas. Foi servida uma refeição ligeira composta de carnes frias; era pouco agradável e confirmou a minha opinião de que a comida ‘aérea’ não é 100%.
Chegada a Heathrow perto do meio-dia e meio. Formalidades alfandegárias, com um dos funcionários a desenrascar um português bastante apreciável e o outro a constatar no passaporte: “Oh! Mozambique?” e o comentário: “That’s a good place”. Que tal?
Após as formalidades, o dilema: Que fazer? Ir de táxi, que é caríssimo, ou safar de outra maneira, o que, para quem não conhece, é assustador? Um casal de idade – ele, professor na Universidade Clássica de Lx – resolveu o problema: “Venham daí que nós ajudamo-los”. Tirámos um ‘Explorer’ que dá para viajar de metro ou bus durante certo tempo, sem pagar nada. Custou £13 cada. Viemos pela Piccadilly Line até Green Park e, já sozinhos, mudámos para a Victoria Line. Saímos na Warren St. E seguiu-se a parte da viagem mais chata: encontrar a Gower St., 77 carregados de malas, sacos e sacolas. Não foi difícil e o meu sentido de orientação funcionou. Instalados no hotel, telefonámos à C.M. e marcámos encontro para duas horas mais tarde. Eram então 15.30. Decidimos sair. Estivemos um pouco em Tottenham Court Road e fomos comer na ‘Tavola Calda’ – italiano em Charlotte St. Dupla dose de ‘white tea and pastry’. Fomos à estação de Correios e escrevemos para Coimbra. Mais umas comprinhas necessárias e regressámos ao hotel. A C. e a N. – uma sua amiga – já nos esperavam e subimos ao quarto para conversar. À noite, fomos ao MacDonald’s comer um hambúrguer e batatas fritas. Regressados ao quarto, a BBC e a ITV exibiram-se por pouco tempo, que o sono aperta, e até amanhã.

13-3-84
Pequeno-almoço no hotel e ‘ala que se faz tarde’. Um mundo que se abre: viemos a pé até Piccadilly Circus por: Tottenham Court Road, já conhecida, Oxford St. – um comércio espantoso e a Virgin Records, e Regent St. – a Jaegar domina. Em Piccadilly Circus vimos o Cúpido e virámos para Piccadilly até à Old Bond St., a qual subimos um pouco. Tudo muito ‘british’. Novamente em Piccadilly, comprámos o almoço e continuámos a descer Regent St. Até Pall Mall. Vimos o render da guarda em St. James Palace e fomos almoçar para o Green Park – o frio gelava as mãos e não conseguimos acabar de comer. Entrámos para uma estação de metro e avançámos até South Kesington. A maior das facilidades para encontrar o Royal Marsden Hospital. Único óbice: ainda faltavam 3 horas para a consulta. Fomos passear para King’s Road e vimos a casa da C. em Markham Sq. Em King’s Road os punks abundam e não é difícil encontrar cabeleiras coloridas ou carecas vestidos de samurais. Voltámos para trás, fomos até à Brompton Oratory, que é um imponente igreja católica, e passeámos na Brompton Road. Voltámos ao hospital e a C. já nos esperava na paragem do bus. Fomos logo para o hospital e falámos com o médico às 5.30, médico muito simpático e que inspira confiança.
Fomos jantar a casa da C., uma casa de um árabe falecido e da sua viúva californiana que vive na Arábia. A avaliar pelo que vimos – pouco – deve ser uma casa fabulosa. Jantámos, vimos o Dallas, e fomos apanhar o 19 a King´s Road, e viemos por: Sloane Sq., Sloane St., Knightsbridge, Piccadilly, Piccadilly Circus – uma maravilha by night, Shafetsbury Avenue e descemos em Charing Cross, por indicação da cobradora. Viemos a pé até ao hotel. Chegámos às 11pm.

NB. Antes de jantar fomos ao Waitrose que é uma loja de artigos alimentares ‘do outro mundo’. Há de tudo, desde frutas exóticas – como kiwi, papaia ou abacate, todo o tipo de conservas, carne e peixe frescos ou já preparados, comida já feita take away, enfim tudo o que se possa imaginar.
Abundam por toda a parte os restaurantes chineses e indianos. Também há italianos, mas não tanto.

14-3-84
Levantámo-nos cedíssimo e nem tomámos pequeno-almoço, pois tínhamos de estar no Royal Marsden às 8.30. Apanhámos o 14 e, como havia pouco trânsito, chegámos bem mais cedo do que o previsto. Felizmente fomos logo atendidos e, à hora marcada para o início, estava a acabar as radiografias. Seguimos então para Harley St. – pelas linhas Piccadilly e Bakerloo, com descida em Regent’s Park – e encontrámos o analista com facilidade. Fui atendido rapidamente, e, através de métodos modernos, lá dei uns centímetros cúbicos de sangue para os vampiros! Saídos de lá, avançámos para Baker St. Para conhecer o famoso 112-B. As referências a Sherlock Holmes não faltam – a estação de metro de BS está cheia de silhuetas do detective criado por Conan Doyle – mas nem uma indicação da casa onde viveu. Com paragem numa papelaria e num ‘post office’, chegámos a Marylebone Road com o propósito de visitar o Madame Tussaud’s. Era bom, era! Como as entradas eram a £4 e tal, nós só saímos. Esqueci-me de referir o ‘La Rose’, em Paddington St., onde tomámos o pequeno-almoço e o almoço às 10.30.
Chegados ao hotel, uma desagradável notícia: um erro na conta do analista e pediam-nos para lá voltar. ‘Oh não!’ Mas voltámos. De metro para lá, a butes para cá. Na viagem do analista para o hotel gastei, como combustível, dois Crunchies. Talvez por ser na rua da embaixada polaca, confundiram-nos com polacos; o mesmo homem, que precisava de trocos para o parquímetro, aceitou a troca de 65 p. por uma nota de libra. É o negócio!
Só voltámos a sair do hotel para um jantar – chamam-lhe isso – no MacDonald’s. Apesar do meu preconceito contra a comida americana, o cheeseburger engolido às 19.00 soube-me bem. Principalmente porque o almoço tinha sido às 10.30; mais, consistira numa sandwich de salada mista e um white coffee.
E agora ó-ó, que amanhã vai ser um longo dia.»



No dia seguinte, quinta-feira, tornei a ir ao médico e ele propôs-me ficar em Londres por um período entre 3 a 6 meses, para fazer quimioterapia. Pelos vistos, não tornei a escrever notas.
Mas estas são curiosas. Desde logo porque, tirando um certo estilo ‘naive’, fiquei admirado como já conseguia escrever razoavelmente bem, com humor (apesar da situação), e muito soltinho.
Outra coisa admirável, é o pormenor do registo. E os nomes das ruas. Não admira que eu tenha ficado logo a conhecer bem a cidade e a desenrascar-me bem, com a minúcia dos apontamentos. Outra coisa engraçada é como nestes três primeiros dias se inscreve logo o principal da minha geografia londrina: dos lugares, que nas ruas e nas zonas referidas se passou muita da minha vivência em Londres; e dos afectos, as duas pessoas que refiro nos apontamentos, a N. e a C.M. permanecem até hoje na minha vida com a intensidade das irmãs.
Outra coisa curiosa é o meu deslumbramento. Portugal em 1984 ficava no Terceiro Mundo e eu, pela primeira vez, pisava uma grande cidade europeia. O deslumbramento no supermercado é hilariante: precisamente, não havia hipermercados em Portugal. Nem, para o caso, restaurantes MacDonald’s. Aliás, não me passou despercebido o ‘meu preconceito contra a comida americana’; na altura, eu acho que estaria no apogeu do meu esquerdismo e, militantemente, dizia mal do MacD., mas ia lá jantar todos os dias!

Comovi-me muito ao ler isto. Talvez porque estou a passar uma fase mais delicada e ando mais sensibilizado. Talvez porque são sempre uma comoção estes encontros com o que nós fomos, e logo numa fase tão especial da minha vida. Talvez porque nestes três primeiros dias se lê o meu fascínio, o meu amor, por Londres, pelos ‘meus’ lugares, pelos enormes amigos que lá tenho, e estou cheio de saudades, da cidade, do bairro, das ruas, das lojas, dos amigos. Talvez porque nunca mais volte a passear por Londres com os olhos pasmados que se adivinham nestes apontamentos. Talvez porque nesses meses em Londres, enquanto a minha vida estava em risco, eu vivia uma outra vida, tão distante e diferente da minha vida em Coimbra, com experiências tão invulgares, com pessoas que foram sempre boas para mim, uma vida em que parecia que cada dia, cada hora, cada momento, eram importantes; mesmo os de maior sofrimento e angústia. Talvez porque nunca mais vou passear assim com a minha mãe, andarmos assim quilómetros a pé, enfrentarmos juntos as maiores adversidades, dominarmos com esta classe uma cidade estrangeira, vivermos cada coisa como uma aventura entusiasmante.