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crash
rosas
innersmile
O que mais me agradou em Crash / Colisão, foi a forma perfeita como a narrativa se organiza, como se fosse um plano largo traçado a esquadria, onde todos os elementos encaixam perfeitamente uns nos outros, e onde valem por si mas valem muito mais quando encontram o seu lugar no conjunto do puzzle. Não é inédita esta construção (o Robert Altman especializou-se neste tipo de frescos, e o PT Anderson produziu em Magnólia um paradigma), mas o que surpreende neste filme de Paul Haggis é a forma como ele consegue manter intacta a intensidade dramática do enredo e a profundidade de todas as personagens; com efeito, um dos riscos maiores destes filmes que se organizam de forma muito matricial é que a complexidade cerebral da sua construção não raras vezes compromete quer a verosimilhança das personagens, porque é sempre grande a tentação de lhes dar um valor simbólico no tecido da narrativa, quer o desenvolvimento dramático das histórias.
Mas a esses três pontos (a elaboração da narrativa, o melodrama e a verosimilhança das personagens) podemos acrescentar outros que transformam este filme numa primeira obra muito interessante: a fotografia que é belíssima, muito saturada, a inundar de vida as peripécias do enredo; as interpretações que são todas excepcionais, sobretudo no tom muito contido das emoções sempre à beira da explosão.
Para o fim, fica aquele que me parece o ponto mais importante do filme, e que é a construção de uma narrativa que tenta tomar o pulso às relações inter-raciais numa cidade, Los Angeles, que é uma das grandes metrópoles do mundo que assumem essa característica de serem lugares de confluência rácica e de convivência multi-cultural. A forma como o filme vai expondo os modos como o racismo, ou melhor dizendo: os racismos, vão determinando o sentido das nossas existências, vão condicionando não só as nossas relações sociais mas as nossas próprias personalidades. O filme tem uma mensagem inequivocamente optimista, apesar do sofrimento e do generalizado tom melancólico: afinal de contas, o desastre está sempre mais latente do que acontece na realidade, é sempre mais uma ameaça que paira sobre as nossas cabeças. E, quando explode, a agressão acontece quase sempre nos sítios mais inesperados, naqueles, precisamente, onde somos mais fracos e desprotegidos. E que, no fundo, quando falamos de racismo, não estamos a falar de outra coisa que não seja de pessoas, de seres humanos, de indivíduos, a quem a contingência da cor da pele impõe, só por isso, uma dose de sofrimento e dor.

No anterior filme de que falei aqui, In My Country, uma das justificações que se dá para a opção pelas comissões de verdade e reconciliação em vez do recurso aos tribunais, tem a ver com um conceito de justiça popular que as comissões tentaram recuperar. Esse conceito é «unbuntu», e que se traduz mais ou menos pela ideia de que o sofrimento que é infringido a uma pessoa se transmite sempre a todas aquelas que estão ao seu redor. E, em última análise, ao próprio causador do sofrimento. Por isso, é importante perdoar ao carrasco, porque só quando ele se libertar verdadeiramente da dor culpada do crime que praticou, é que a vítima se pode sentir libertada da dor e do sofrimento que sentiu.
Curiosamente, este Crash, de Paul Haggis, não fala de outra coisa que não seja «unbuntu».
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