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guibert + egiptólogo
rosas
innersmile
Apenas uma nota para registar dois livros lidos ultimamente.

Um deles, de Hervé Guibert, O Meu Criado e Eu, é um pequeníssimo ‘romance burlesco’ que conta a história de um patrão e do seu criado, com requintes de crueldade e muito humor. Num plano mais literal, o livro é sobre as complexidades das relações de dominação/submissão. Todas as relações humanas são relações de poder, no sentido em que há sempre em disputa um determinada dose de poder, ou seja, dessa capacidade de influenciar a vida dos outros de forma a que ela sirva os nossos objectivos. Claro que isto não significa necessariamente que em qualquer relação, nomeadamente na relação amorosa, seja sempre o mesmo parceiro a deter a maior parcela de poder; na maior parte dos casos, o detentor do poder vai alternando de um para o outro, num processo mais ou menos contínuo de construção de equilíbrios e rupturas. O que de certa forma me fascina nas relações sado-masoquistas (não obstante eu achar que seria perfeitamente incapaz de participar numa) e, de forma geral, nas relações de dominação/submissão, é que, ao contrário do que acontece de forma implícita no comum dos casos, nelas essa relação de poder é explícita, aliás é encenada. O livro de Guibert é uma fantasia, um exercício, sobre esta encenação do poder e sobre a forma como ele é muitas vezes enganador: nem sempre aquele que aparentemente exerce o poder (o que detém o poder formal, digamos assim), é o que verdadeiramente o detém; muitas vezes, se não a maior parte, o que faz o jogo da submissão é o verdadeiro dominador.
Num plano menos literal, o livro de Guibert é uma metáfora sobre a doença e o sofrimento físico, e sobre a morte em consequência dela. Enfim, sobre a decadência que está intimamente lidada à doença. Quando o escreveu, o autor sofria de Sida, que se viria a revelar fatal em muito pouco tempo, e o livro tem também a dimensão de um esconjuro, de uma sublimação, e nesse aspecto, senhor e criado são afinal as duas faces do ser humano que contempla o seu antecipado fim.

O outro livro foi uma recomendação de um dos meus contactos no multiply, em parte motivada pelas crónicas que eu escrevi sobre as minhas férias no Egipto. Chama-se O Egiptólogo, de Arthur Phillips, e é sobre um arqueólogo que, na década de 20 do século passado, procura desesperadamente o túmulo de um rei desconhecido, que, entre outras coisas que o distinguiriam como o mais extraordinário dos faraós, teria sido o inventor da pornografia. O ponto é que, enquanto Ralph Trilipush escavava violentamente no vazio, na tumba ao lado Howard Carter descobria o túmulo e o tesouro de Tutankamon. Este contraponto serve para estabelecer o romance como uma história sobre o fracasso e sobre os limites da obsessão. O livro é escrito em tom de mistério (digamos que é catalogável na categoria mistério e suspense), e o interesse principal provém do facto de ele ser escrito a duas mãos, e ambas na primeira pessoa do singular: a do próprio Trilipush, através dos seus diários e correspondência, e a do detective que anda no seu encalço e o tenta desmascarar, através um flashback epistolar. Este estilo narrativo confere ao livro o seu melhor: a forma como os factos, a verdade, se vai destapando devagar, como se vão levantando pontas do véu de forma muito subtil; mas também o seu pior: a partir do momento em que adivinhamos a história, o livro torna-se um pouco aborrecido. Com efeito, não há nada que mate mais eficazmente um romance de mistério e suspense do que descobrir qual o mistério que ele tenta esconder.
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