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o tempo na ilha
rosas
innersmile
Devo ter falado aqui no innersmile do livro anterior de João Paulo Borges Coelho, As Visitas do Dr. Valdez, de que gostei bastante. Tenho aí por casa o primeiro livro do autor, As Duas Sombras do Rio, ainda à espera de leitura. Mas agora comecei a ler a sua obra mais recente, a parte I de Índicos Indícios, contos (‘estórias’, como se diz na capa), dedicados às paragens do Índico do norte de Moçambique. Por isso, esta parte I leva o título Setentrião, prometendo o autor o Meridião, com ‘estórias’ do sul do país.
Logo o primeiro conto do livro, O Pano Encarnado, é dedicado à Ilha de Moçambique, que é um dos meus lugares preferidos do mundo.
Uma das coisas fantásticas da Ilha é uma noção muito própria do tempo, do tempo cronológico, do tempo que passa… ou não. Na sequência da minha visita à Ilha, em Janeiro de 2003, escrevi poemas e contos tentando de alguma forma captar essa estranha e única percepção do tempo, que temos quando estamos na Ilha. A sensação de que o tempo não passa, mas que no entanto ele fica, quase segundo a segundo, momento a momento, gravado nos muros, nas pedras. Até nas sombras. Pois bem, logo no conto inicial do livro, João Paulo Borges Coelho refere-se a esse carácter tão especial do tempo na Ilha. Tão bem descrito, que eu senti logo uma enorme familiaridade, como se estivesse ali descrita com rigor uma impressão tão difusa e difícil de agarrar. São esses dois trechos que reproduzo a seguir. Falta apenas dizer que o livro foi editado pela Caminho, e que João Paulo Borges Coelho é, com três livros publicados, um essencial escritor da língua portuguesa, que, para além de escrever muito bem, escreve ligeiro e divertido, com uma grande capacidade de captar a oralidade (ou não fosse moçambicano) e de retratar com a exuberância de uma fotografia a cores, a riqueza do quotidiano de Moçambique e o lirismo poético da sua cultura.

«Aqui ninguém parece dar importância ao passar do tempo que a esse só medem, como vimos, em milénios. Deixam-no correr economizando os gestos, ainda assim atentos ao ligeiríssimo rasto que larga ao passar por nós em direcção ao futuro. Tão ténue ele é que só com muita atenção lhe notamos a passagem.»

«Respiramos fundo e deixamos adormecer a consciência, adormecer o corpo para poder enfim sentir na pele, tal como eles, o ligeiro roçar do tempo. Tão lento, tão leve e ténue ele é que só o conseguimos sentir se estivermos verdadeiramente quietos, na antecâmara do adormecimento. Não é uma brisa, que a chegada desta nada tem de extraordinário para além de estar soprando. É o tempo mesmo, e a esse só se pode descobrir se o ar estiver imóvel, se nós estivermos imóveis, se o silêncio for total para além do trote ligeiro que Jamal pedala sem sair do mesmo lugar. Fechamos então os olhos, deixamos que a sensação emigre para a ponta dos dedos, as orelhas, as narinas, e quando estivermos tomados dessa atenção cutânea e periférica, e a quietude voltar a ser verdadeiramente total, sentiremos o roçar do tempo passando lenta e inexoravelmente em direcção ao futuro. Sempre vindo de trás, das nossas costas; sempre indo para diante, na direcção do olhar.»