June 22nd, 2005

rosas

o tempo na ilha

Devo ter falado aqui no innersmile do livro anterior de João Paulo Borges Coelho, As Visitas do Dr. Valdez, de que gostei bastante. Tenho aí por casa o primeiro livro do autor, As Duas Sombras do Rio, ainda à espera de leitura. Mas agora comecei a ler a sua obra mais recente, a parte I de Índicos Indícios, contos (‘estórias’, como se diz na capa), dedicados às paragens do Índico do norte de Moçambique. Por isso, esta parte I leva o título Setentrião, prometendo o autor o Meridião, com ‘estórias’ do sul do país.
Logo o primeiro conto do livro, O Pano Encarnado, é dedicado à Ilha de Moçambique, que é um dos meus lugares preferidos do mundo.
Uma das coisas fantásticas da Ilha é uma noção muito própria do tempo, do tempo cronológico, do tempo que passa… ou não. Na sequência da minha visita à Ilha, em Janeiro de 2003, escrevi poemas e contos tentando de alguma forma captar essa estranha e única percepção do tempo, que temos quando estamos na Ilha. A sensação de que o tempo não passa, mas que no entanto ele fica, quase segundo a segundo, momento a momento, gravado nos muros, nas pedras. Até nas sombras. Pois bem, logo no conto inicial do livro, João Paulo Borges Coelho refere-se a esse carácter tão especial do tempo na Ilha. Tão bem descrito, que eu senti logo uma enorme familiaridade, como se estivesse ali descrita com rigor uma impressão tão difusa e difícil de agarrar. São esses dois trechos que reproduzo a seguir. Falta apenas dizer que o livro foi editado pela Caminho, e que João Paulo Borges Coelho é, com três livros publicados, um essencial escritor da língua portuguesa, que, para além de escrever muito bem, escreve ligeiro e divertido, com uma grande capacidade de captar a oralidade (ou não fosse moçambicano) e de retratar com a exuberância de uma fotografia a cores, a riqueza do quotidiano de Moçambique e o lirismo poético da sua cultura.

«Aqui ninguém parece dar importância ao passar do tempo que a esse só medem, como vimos, em milénios. Deixam-no correr economizando os gestos, ainda assim atentos ao ligeiríssimo rasto que larga ao passar por nós em direcção ao futuro. Tão ténue ele é que só com muita atenção lhe notamos a passagem.»

«Respiramos fundo e deixamos adormecer a consciência, adormecer o corpo para poder enfim sentir na pele, tal como eles, o ligeiro roçar do tempo. Tão lento, tão leve e ténue ele é que só o conseguimos sentir se estivermos verdadeiramente quietos, na antecâmara do adormecimento. Não é uma brisa, que a chegada desta nada tem de extraordinário para além de estar soprando. É o tempo mesmo, e a esse só se pode descobrir se o ar estiver imóvel, se nós estivermos imóveis, se o silêncio for total para além do trote ligeiro que Jamal pedala sem sair do mesmo lugar. Fechamos então os olhos, deixamos que a sensação emigre para a ponta dos dedos, as orelhas, as narinas, e quando estivermos tomados dessa atenção cutânea e periférica, e a quietude voltar a ser verdadeiramente total, sentiremos o roçar do tempo passando lenta e inexoravelmente em direcção ao futuro. Sempre vindo de trás, das nossas costas; sempre indo para diante, na direcção do olhar.»