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mertens
rosas
innersmile
No Sábado fui a Aveiro, assistir, no Teatro Aveirense, ao concerto Un Respiro, de Wim Mertens. Apesar de conhecer a música do WM desde os anos 80 (tenho em cd o Maximizing The Audience, que foi dos primeiros que eu comprei), nos últimos tempos tenho prestado muito pouca atenção. Fiquei muito surpreendido com o concerto. A primeira nota é que o universo musical de WM é muito próprio, muito distinto, mas de uma coerência incrível. Cada peça, enfim, cada canção, parece ser um andamento de uma composição vasta e que se vai construindo à medida que o concerto se desenrola. Fiquei também surpreendido porque achei o WM muito simpático. Tinha lido uma notícia de um dos concertos anteriores desta digressão, em Portugal, e fiquei com a ideia de que ele seria um tipo um pouco frio e distante. Nada disso. Apesar de não abrir a boca, a não ser para cantar e para murmurar uns agradecimentos, achei-o de uma grande simplicidade e entrega, e até uma postura de uma certa timidez, ou, pelo menos, reserva. E a prova foram os sucessivos encores, a responder ao entusiasmo do público.
Mais um óptimo concerto a acrescentar a uma temporada que tem sido das melhores da minha vida em termos de concertos musicais, em que a qualidade tem respondido a uma quantidade não usual.

Já agora uma notazinha para dizer que gostei muito do Teatro Aveirense, que ainda não conhecia, e que foi todo remodelado há menos de meia dúzia de anos. A sala é acolhedora e muito bem restaurada. Os espaços de apoio são modernos e funcionais.



Este fim de semana faleceu o pai de um colega meu de faculdade. Conheci-o quando estive em Londres a fazer tratamento e o senhor, que se deslocou lá em viagem profissional, se ofereceu para levar alguma coisa. O meu pai aproveitou e pediu-lhe para me levar um saco de roupa, porque eu fui para Londres no Inverno e entretanto já era Verão e eu não tinha roupa adequada. Passámos uma tarde juntos, eu, a minha mãe e ele, muito agradável. Isto foi há mais de vinte anos. Durante este tempo, encontrámo-nos algumas vezes no âmbito das nossas respectivas profissões, e ele era sempre muito simpático para mim, sem dúvida devido ao facto de eu e o filho dele sermos colegas e amigos, mas também, sempre estive certo, porque lhe tocou muito a circunstância em que nos conhecemos. Hoje, no velório tive a prova disso, quando o meu amigo me contou que o pai falava muitas vezes desse nosso encontro em Londres, e que contava ao meu amigo, com entusiasmo, sempre que nos encontrávamos. Naturalmente, eu tenho sempre uma ligação muito forte a todas essas pessoas que conheci quando estive doente, e por causa de ter estado doente. A todas essas pessoas que me ajudaram, às vezes apenas porque passaram uma tarde a conversar comigo, numa altura de tanto sofrimento e tanta solidão. Comove-me que essas pessoas se tenham igualmente tocado com isso. E a prova é que mais de vinte anos passados, uma das primeiras coisas que o meu amigo me disse hoje quando cheguei lá à capela, foi recordar que eu e o pai dele nos tinhamos conhecido em Londres, e como o pai sempre vibrava quando me encontrava saudavel e forte.

o país vai de carrinho
rosas
innersmile
Talvez seja por eu ser um velho marreta de esquerda, senil e totalmente ‘démodé’, mas a verdade é que estou muito perplexo, e um pouco perturbado, com a onda de racismo e xenofobia que subitamente varreu o país. Um tipo acorda de manhã, e descobre que afinal ser anti-racista é ser politicamente correcto!
Eu sei que as questões relacionadas com a segurança no dia-a-dia são muito inquietantes, quando um tipo se vê confrontado, sem grandes hipóteses de defesa, com um gang de malfeitores na praia ou no comboio. E também não desconheço que muito desta criminalidade urbana é praticada por pretos. Mas querer ver a cor da pele como causa de um crime parece-me um recuo filosófico que eu, francamente, já não acreditava possível. Achar que os nossos problemas de segurança se resolvem fechando a porta aos emigrantes (pretos, que só estes estão em causa), ou mesmo devolvendo os pretos a África e fechando a seguir as fronteiras, mais do que uma solução primária (e completamente inexequível), é meter a cabeça na areia e fazer de conta que se desconhecem os verdadeiros problemas. Até porque, como li já não sei onde, muitos desses delinquentes são tão portugueses como o mais branquela dos jovens nacionalistas, nasceram cá e sempre cá viveram. E francamente não estou a ver como é que vamos arranjar base legal para expulsar os portugueses de Portugal.
O que as pessoas não querem ver, é que este tipo de delinquência é produto da miséria! Não tanto da miséria material, da pobreza em sentido mais duro, mas da total ausência de valores e referências cívicas e sociais, em sequência da qual assaltar uma velhota no comboio de Sintra justifica-se para comprar um par de sapatilhas. Ao delinquente urbano não ocorre que pode roubar directamente as sapatilhas, porque isso lhe retiraria o gozo de comprar, de ir ao shopping e consumir. Mas o problema é que em Portugal se cultiva, desde há algum tempo, a lógica do dinheiro fácil, dos bens de consumo de perfil de prestígio (os telemóveis de última geração, os automóveis de grande cilindrada, os mais recentes ténis da Nike); a lógica de que vale tudo desde que não se seja apanhado! E mesmo se se for apanhado, a de que um bom advogado nos safa sempre.
A diferença é que, e passe o exagero, um adolescente branco que queira um telemóvel novo, pede ao pai, que, se for preciso, rouba mais uns impostos para lho comprar. Um adolescente preto é, normalmente, filho de operários ou trabalhadores da construção civil, de mulheres a dias ou de empregadas em empresas de limpezas, e que não têm dinheiro e não sabem como o roubar ‘legalmente’. Então o adolescente preto aprende a safar-se sozinho, e a melhor forma de safar sem a ajuda dos pais ou da família, é com a colaboração dos amigos.
A questão é que não há soluções fáceis para problemas tão profundos e complexos. O que as pessoas não querem ver é que houve um grande alteração de valores e princípios, que as relações sociais se degradam quando a lógica do dinheiro é a única prevalecente. Nos países capitalistas mais puros e duros, a sociedade civil desenvolveu mecanismos de defesa e correcção para controlar este tipo de problemas, por exemplo através do espírito de voluntariado, das associações de vizinhança. Ou seja, através do desenvolvimento de redes de solidariedade, de iniciativa comunitária e particular, que nos defendam da lógica um pouco inevitável do dinheiro fácil. Em Portugal, a sociedade civil não existe: ficamos sempre à espera que seja o Estado a resolver todos os problemas. Passámos muito rapidamente de uma sociedade muito rural e atrasada, em que a moral religiosa era o principal paradigma comportamental, para uma sociedade de consumo em que vale tudo, mesmo tirar olhos. Alimentámos o monstro, em nome do prazer e do desfrute material, e agora queixamo-nos de que o monstro está incontrolável. Neste sentido dizer que ‘a culpa é dos pretos’, é, para além de um primarismo muito básico, uma tremenda injustiça.

Devo dizer que não me chocam muito as manifestações de extrema-direita como a que houve no Sábado em Lisboa. É daquelas coisas que sempre houve e sempre haverá. E que tem pelo menos uma vantagem, que é a de pôr à vista este tipo de organizações e os seus dirigentes. Sempre é preferível que eles se manifestem publicamente, do que se juntem clandestinamente para provocar desacatos, para matar pretos no bairro alto ou que infiltrem as claques de futebol para poderem provocar conflitos e perturbação social.
O que me deixa muito perplexo é a facilidade com que hoje as pessoas falam nos ‘pretos’, 'a culpa é dos pretos’, ‘o governo devia correr com os pretos’. Chocou-me muito que aqui no livejournal, a propósito do arrastão de Carcavelos, tenha havido pessoas a usar esse tipo de argumentos e expressões. E ainda por cima se um tipo acha que não faz sentido dizer que o governo devia correr com os pretos, é porque é politicamente correcto.
Louvo por isso as poucas pessoas que puseram posts no livejournal (por exemplo a Susana do dentrodeti_oh e o polaroidio) a manifestarem-se contra este racismo medíocre e mariquinhas. Louvo o Presidente da República por, no dia da manifestação, e nem sei se foi de propósito ou por acaso, ter ido visitar as pessoas que, originárias e moradoras num dos bairros mais degradados e problemáticos da metrópole lisboeta, escolheram trabalhar a partir de dentro da própria comunidade, para tentar modificar alguma coisa.


E secundando uma moção anterior, aqui proponho a canção ‘O País Vai de Carrinho’, do José Afonso, para hino deste momento particularmente infeliz da nacional bizarria:

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis

Blusão de cabedal preto
Sapato de bico ou bota
Barulho de escape aberto
Lá vai o menino-mota

Gosta de passeio em grupo
No mercedes que o papá
Trouxe da Europa connosco
Até à Europa de cá

Despreza a ralé inteira
Como qualquer plutocrata
Às vezes sai para a rua
De corrente e de matraca

Se o Adolfo pudesse
Ressuscitar em Abril
Dançava a dança macabra
Com os meninos nazis

Depois mandava-os a todos
Com treze anos ou menos
Entrar na ordem teutónica
Combater os sarracenos

Os pretos, os comunistas
Os Índios, os turcomanos
Morram todos os hirsutos!
Fiquem só os arianos!

Chame-se o Bufallo Bill
Chegue aqui o Jaime Neves
Para recordar Wiriamu,
Mocumbura e Marracuene

Que a cruz gamada reclama
e novo o Grão-Capitão
Só os meninos nazis
Podem levar o pendão

Mas não se esqueçam do tacho
Que o papá vos garantiu
Ao fazer voto perpétuo
De ir prá puta que o pariu