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sophie scholl - os últimos dias
rosas
innersmile
No livro ‘Até ao Fim’, que relata a sua experiência enquanto secretária de Hitler e a sua experiência no bunker de Berlim nos derradeiros dias do Reich e do seu Fuhrer (e de que tenho falado aqui no innersmile), Traudl Junge conta igualmente como foi o seu processo de desnazificação e apaziguamento pessoal. Junge conta que durante muito tempo se auto-desculpabilizou com o facto de, em 1943, quando foi recrutada para secretária pessoal de Hitler, ser demasiado jovem e se ter deslumbrado com a oportunidade que essa posição lhe dava de conhecer e viver o mundo. Ou seja, um erro de juventude.
Mas conta mais. Que um dia, ao passear na Franz-Joseph Strasse, em Munique, reparou numa placa assinalando o lugar onde vivera Sophie Scholl, uma rapariga resistente que foi executada pelos nazis, e que a sua desculpa caíra por terra. Scholl era mais nova um ano do que a Junge, e partilhara uma experiência de militância nas BDM, a juventude hitleriana especialmente dedicada às raparigas.
Em 1943, no ano em que Traudl entrou ao serviço de Hitler, Sophie foi presa, quando distribuía panfletos incitando à resistência da juventude contra o nazismo, na universidade de Munique. Juntamente com Sophie, foram presos o seu irmão, Hans, e um amigo, que tinha sido o autor do panfleto. Os três pertenciam à Rosa Branca, uma organização naturalemente clandestina, formada por pessoas muito novas, normalmente estudantes universitários, que se dedicava a denunciar o nazismo por dentro, a partir da sociedade civil, através de panfletos e pinturas nas paredes. No seguimento da prisão de Sophie e Hans, vários outros membros da Rosa Branca foram presos e executados. Entre os seus membros que sobreviveram, contam-se Inge Scholl, irmã de ambos, que escreveu a história da organização.
Sophie e Hans foram presos no dia 18 de Fevereiro, quando, como disse, distribuíam panfletos na universidade. Foram interrogados durante três dias. No dia 22, foram julgados por um tribunal popular presidido por um juiz que veio de Berlim propositadamente para o efeito. Foram considerados culpados e, nesse mesmo dia, executados através da guilhotina.

Com o fim da Republica Democrática Alemã, foram descobertos e analisados muitos documentos relativos à Alemanha nazi, entre eles os relatórios do interrogatório e a acta do julgamento de Sophie Scholl. Com base nesses documentos, Marc Rothemunds realizou Sophie Scholl – Die Letzten Tage, que relata precisamente esse período de quatro dias que culminaram na execução dos Scholl. No entanto, e apesar dessa origem documental, o filme de Rothemunds é muito diferente, por exemplo, do recente A Queda. Com efeito, o filme assemelha-se a uma peça de teatro, quase como se estivesse organizado em actos, e em que cada um desses actos condensa, com particular intensidade dramática, um determinado momento da história. Por outro lado, o filme é feito com uma notável economia de meios: não há paradas, não há a encenação totalitária do nazismo. O filme passa-se (quase) sempre em interiores, em que apenas a bandeira com a cruz gamada e um busto de Hitler nos contextualizam. Tudo repousa nos diálogos e na capacidade de os intérpretes viverem as personagens: notabilíssima a interpretação de Júlia Jentsch no papel de Sophie, e a subtileza inquietante de Alexander Held no papel do interrogador Mohr. Aliás, o segmento do interrogatório é, para mim, o melhor momento do filme, pela dinâmica que se estabelece entre as duas personagens. Ao contrário, a cena do julgamento parece-me francamente má, com a representação do juiz a cair na total caricatura, o que retira eficácia e dramatismo à acção.
Não sendo um grande filme, é de todo o modo completamente recomendável. Desde logo, pelo interesse em ver formas de narrativa cinematográficas que escapam ao que estamos mais habituados a ver – há muitas formas de contar histórias em cinema que não são as tradicionais do cinema americano de indústria, made in Hollywood. Mas sobretudo pelo elevado interesse da história, pelo facto de ela ser em grande parte desconhecida (eu confesso que a primeira vez que ouvi falar no nome de Sophie Scholl foi no referido livro da Traudl Junge). Até para nos mostrar que, afinal, a Alemanha sob o jugo nazi não foi a tábua rasa de fanatismo cego que muitas vezes julgamos ter sido. Como no poema de Manuel Alegre, mesmo na noite mais escura, há sempre alguém que resiste. Nem que seja pelo acto simples, mas terrivelmente mortal, de escrever a tinta numa parede a palavra mágica e subversiva entre todas: freiheit.
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