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eu vou com as aves
rosas
innersmile
Hoje acordei, literalmente, com a notícia da morte de Álvaro Cunhal (dois ou três dias depois da do General Vasco Gonçalves, outro símbolo do Portugal de Abril). Senti-me de luto, tal como acho que é Portugal que está de luto. Nunca fui militante comunista, e foram poucas as vezes em que concordei com as posições do PCP, quase tantas como aquelas em que votei no Partido Comunista. Mas naquela argamassa que nos une a todos, a todos nós que partilhamos um tempo, o nosso, e um lugar, o país onde vivemos, Cunhal é um dos elementos principais. Marcou-nos a todos, porque marcou indelevelmente a vida política portuguesa nos últimos 60 ou 70 anos. Todas as pessoas das gerações anteriores à minha, a grande maioria das pessoas da minha geração, e muitas das gerações posteriores, sabem, e sentem isso. E, por isso, sentem que este dia é de luto. Porque é alguma coisa que fazia parte de nós, da nossa maneira de olhar e perceber o mundo. Em relação a Cunhal, era muito difícil ficar indiferente. Ele próprio, um homem apaixonado e absoluta e ferreamente dedicado a causas, se encarregava de não nos deixar indiferentes. Haverá, tenho a certeza, quase tantas pessoas que odiaram Cunhal como as que o amaram quase com devoção. É já um lugar comum elogiar-lhe a coerência, sobretudo para quem foi seu inimigo político, é assim uma espécie de reduto onde todos nos podemos encontrar, o mínimo denominador comum da admiração por Cunhal. Francamente, eu não acho que a coerência seja uma qualidade em si. Aliás, quando é obstinação (e no caso de Cunhal, era) pode ser um defeito terrível (e no caso de Cunhal algumas vezes terá sido). Mas o que eu achava admirável em Cunhal era o facto de ser um homem de uma inteligência superior, e, tendo uma visão da qual nunca abdicou, ter dedicado toda essa inteligência e toda a energia da sua vida a perseguir essa visão. Com método, com rigor, com planeamento, com estratégia. Dir-se-ia, num aparente paradoxo, que se dedicou quase de forma desapaixonada a uma causa que o apaixonava. Era isso, essa mistura certa entre a obstinação sem tréguas da paixão, e uma capacidade muito lúcida e analítica (inteligente, repito-me) de se mover ao seu encontro, que tornavam Álvaro Cunhal um ser de distinção e que, amado ou odiado, era profundamente respeitado por todos.


Ainda mal refeito desta notícia, outra ainda mais brutal: morreu Eugénio de Andrade. A poesia de Eugénio é, juntamente com a de Pessoa, de Reinaldo Ferreira, de Al Berto, de Cavafys, de Rui Knopfli, de Garcia Lorca ou de Walt Whitman, a que eu sempre procuro para me encontrar, para me perceber, para me ler no mundo e para ler o mundo em mim. Mas Eugénio foi o primeiro: em termos cronológicos, porque foi o primeiro poeta que eu li a sério e cuja poesia eu fiquei a conhecer bem. E porque, de alguma forma, e entre essa constelação de poetas geniais, é ainda, para mim, para o meu eu, o maior. É impossível resumir tudo o que os poemas de Eugénio me deram. Aliás, é impossível falar desse ‘tudo’, porque muito do que ele me deu, e dá, não é sequer racionalizável, faz parte do epidérmico domínio das emoções.
Porque os poemas de Eugénio me deram, primeiro que tudo, uma visão da vida: um mundo solar, de contacto com a natureza, onde a beleza desponta espontânea em toda a parte e temos a obrigação de educar os nossos olhos para a ver. Um mundo de amor, que só faz sentido se partilharmos, se o partilharmos, se nos partilharmos. Tenho de admitir que a primeira coisa que me apaixonou em Eugénio, foi o facto de a sua sensualidade escorrer em cada palavra, em cada verso. E o facto de essa sensualidade ser muito marcada pela homossexualidade. Mas o que é notável em Eugénio, o que o transformou em primeiro, se não mesmo em único, é que o poeta não deixou essa sensualidade esconder-se, não a aprisionou, antes a deixou voar livre pelos poemas, assumiu-a não como uma bandeira, mas como mais uma dessas coisas do mundo natural que o poeta sempre cantou.
E o amor de Eugénio à poesia não se esgotou naquela que ele próprio produzia. Devo-lhe, para além de tudo o mais, o conhecimento de Camões. Foi através dos olhos de Eugénio, aliás, foi mesmo através de uma antologia camoniana que ele preparou, que eu comecei a ler, e a apaixonar-me, pela poesia de Camões. Tanto que ainda hoje os meus versos preferidos de Camões são precisamente esses que Eugénio antologiou. Tal como foi Eugénio que me trouxe Lorca, os primeiros poemas de FGL que eu li foram os que Eugénio traduziu, e foi por causa deles que eu fui à procura de mais. Tal como foi Eugénio que me fez olhar com atenção para a poesia helénica, indo a procura de outro sol na poesia da Grécia. Enfim, foram tantas as coisas que eu recebi através de Eugénio, que francamente não as consigo enumerar.

Em pouco menos de um ano, Portugal perde aqueles que eram, na minha opinião (e não me estou a esquecer rigorosamente de ninguém, mas esta é a minha opinião), os seus dois maiores poetas contemporâneos. Primeiro Sophia, agora Eugénio. Confesso que sempre fui mais de Eugénio do que de Sophia. Eu, pessoalmente. Sempre amei mais os poemas, e sobretudo os versos, e sobretudo as palavras, de Eugénio, apesar de, de alguma forma, sentir que Sophia era uma poeta mais nacional, uma poeta que reflectia melhor o nosso colectivo do que Eugénio. Mas que Eugénio era um poeta mais humano, mais de gente, mais de quem tem coração, e músculos, e pele, e sangue, e sexo, e olhos para olhar e cabeça para sentir pensando.

De todos os poetas da minha prateleira de cima da estante da sala, apenas Eugénio era vivo. Isso dava-me uma euforia enorme, essa sensação de partilhar um tempo e um lugar com um poeta assim tão grande e luminoso, e que para mim foi e era tão importante. Não acredito nada em coisas sobrenaturais, só acredito nas naturais: e hoje, depois de dias de sol e calor, dia está cinzento e chove. Ainda bem que o dia está triste e fosco. Assim é mais adequado a esta circunstância de hoje estarmos, todos, todos os que amavam Eugénio como todos aqueles que nunca o lera, mais sós. Comovida e desoladamente mais sós.


edit: só para acrescentar que hoje, 13 de Junho, se assinala o nascimento de Pessoa. Que foi um dos poetas mais lidos e admirados por Eugénio de Andrade. Há dias assim, não é?, em que parece que.

como os goivos cheiram bem
rosas
innersmile
Três poemas de Eugénio de Andrade para Eugénio de Andrade. São de Os Sulcos da Sede, o seu último livro de poemas publicado em vida.


HAVIA VENTO

Era um mês incerto, havia vento,
eu não teria nascido ainda,
ou já teria morrido.
A fronteira entre luz e sombra
era muito difusa. Então
estranhamente o sol pousou
naquele corpo. Corpo que nunca
vira despido, que cheirava
a maçãs maduras,
com brilhos que desciam
às negras sementes da vida.
Estranhamente o sol demorou-se
nos seus ombros. Um último
brilho, ou suspiro, desprendeu-se.
O ar tremia – apesar disso eu era feliz,
Tinha dez ou mil anos, já não sei.


~*~

SOBRE OS CISNES SELVAGENS DE YEATS

Agora anoitece tão cedo – tenho
medo de te perder no escuro.
Lembro-me dos cisnes selvagens
que do lago se erguiam soberanos
iluminando as águas e o céu
do Outono ao fim da tarde.
Também eles se perdem
agora na inclinação da sombra.
Que país será o meu? Este,
onde vivo e sou estrangeiro?
O da luz atravessada
pelos cisnes? Sem ti, como saber?


~*~

RELATO BREVE

Deixarás a casa por acabar.
Ficarão nos muros janelas por abrir
para o primeiro,
o último crepúsculo.
No ar ainda doce, encostado
à parede, o limoeiro
voltará a florir para nenhum olhar.
No jardim uma ou outra flor resiste.
Talvez alguém passe e diga para si mesmo:
Como os goivos cheiram bem!
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