June 9th, 2005

rosas

mrs robinson

A notícia vinha curta e seca numa das colunas laterais do jornal: «a actriz Anne Bancroft, cujo papel mais conhecido foi no filme de 1967 A Primeira Noite (The Graduate), contracenando com Dustin Hoffman, morreu com 73 anos, vítima de cancro, anunciou ontem o seu agente.» (no Público)
Possivelmente, sei lá, a notoriedade actual de Bancroft não justificaria muito maior destaque. E no entanto… Foi mais do que uma vez candidata ao Óscar da Academia, e foi casada com Mel Brooks, que lhe assegurou presença em algumas das suas loucas comédias. A página da imdb.com assinala-lhe a participação em 65 filmes, e até uma realização, facto que eu desconhecia.
E no entanto… Anne Bancroft participou em dois dos filmes mais importantes na minha vida, que são não só dos meus filmes preferidos de um mero ponto de vista de cinefilia, mas são mesmo importantes, de um ponto de vista de crescimento humano e intelectual.
O primeiro desses filmes foi The Graduate – A Primeira Noite, do Mike Nichols, realizado em 1967, e que eu vi pela primeira vez deitado de prostração no sofá do apartamento londrino onde descansava entre sessões de quimioterapia. Não se foi do meu estado de enorme debilidade, mas a visão de Ben na piscina ao som do Sounds of Silence (eu já conhecia a banda sonora do filme, de Simon & Garfunkel, muitos anos antes de ter visto o filme) permanece no meu cérebro como uma das coisas boas desse magoado verão inglês. Nunca mais abandonei o filme. Revi-o, gravei-o, comprei o dvd, vejo-o com regularidade, apesar de já adivinhar muitas das cenas. Aprendi a reconhecer nele todos os sinais de que não é um grande filme, um filme excepcional, mas o que é admirável é que continuo absolutamente fascinado por ele. Talvez porque eu tenha demorado muito tempo a passar da adolescência para a idade adulta e o filme reflecte o mal-estar dessa passagem. Talvez porque o tenha visto pela primeira vez quando estava a despedir-me à força da juventude e o filme me faça sentir nostálgico por toda a vida que eu deixei de viver enquanto dependi exclusivamente de um saco de soro injectado com citostáticos.
O fascínio do filme continua a assentar basicamente em três pés: Ben na piscina, as canções de Paul Simon, e a Mrs Robinson de Anne Bancroft. Há alguns anos, tentei escrever aqui no innersmile (naquilo que foi uma das minhas primeiras tentativas literárias made in livejournal) uma série de curtas ficções baseadas nestes três factores, e para a qual criei um émulo masculino de Anne Bancroft, o Mr. Robinson.
O outro dos ‘meus filmes de sempre’ que Anne Bancroft protagonizou foi Torch Song Trilogy, que recebeu em português, se não estou em erro, o título de Corações de Papel, um filme realizado por Paul Bogart, mas que era um projecto pessoalíssimo de Harvey Fierstein, que escreveu a peça, adaptou-a para cinema e protagonizou. Curiosamente também vi este filme em Londres, numa sala de cinema, em finais dos anos 80, e foi um dos primeiros filmes que eu vi que abordava directamente um tema homossexual. Era, na total acepção da palavra, um filme gay: pelos personagens, pelo ambiente, pelas situações, pelas referências, pelas questões levantadas. Nele Bancroft desempenha, com uma energia transbordante, o papel da crítica, mas divertida, mãe de Arnold, uma mulher judia, terra a terra, sensível e amarga, protectora e implacável, que não consegue decidir-se entre um profundo amor pelo filho e a recriminação por ele ser homossexual, tudo marcado por um generoso conhecimento da vida e do que nela é essencial. Anne Bancroft consegue a suprema habilidade de transformar um personagem que seria à partida antipático, numa mulher adorável, divertida, e de quem não se consegue deixar de gostar apesar dela própria e das suas opiniões conservadoras e agressivas.

Como referi, durante uns tempos escrevi aqui no innersmile ‘the Robinsons’ affair’. Um dos textos, a que chamei ‘(interlúdio)’, é praticamente uma descrição de uma das cenas mais famosas do filme, e onde Bancroft, ou melhor: a perna de Mrs. Robinson, é a vedeta. Aqui fica esse curto texto, em homenagem à que foi, sem qualquer dúvida, uma das actrizes que eu mais gostei, e gosto, de ver no cinema.


the Robinsons' affair - III (interlúdio)

It's a little secret, just the Robinsons' affair

(Benjamim está parado à porta do quarto. O casaco atirado para trás das costas. As mangas da camisa arregaçadas até ao cotovelo.
Tudo o que Benjamim vê é o sapato preto. A perna enfiada numa meia preta. O cigarro que pende dos lábios. Benjamim não percebe se o sorriso que aflora os lábios é simpático ou trocista.
Benjamim não consegue ouvir. Ou, se ouve, não percebe. Mas obedece. Avança até meio do quarto. Deixa cair o casaco no chão. Senta-se na beira da cama por um momento. Levanta o lençol e deita-se ao lado do corpo quase nú. Beijam-se.
-Fade-)