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o espelho velho
rosas
innersmile
É um poema do C. Cavafys (traduzido pelo Jorge de Sena):

O ESPELHO NA ENTRADA

A casa rica tinha no vestíbulo
um espelho enorme, imenso, muito antigo,
comprado há pelo menos oitenta anos.

Um perfeito rapaz, aprendiz de alfaiate -
e aos domingos atleta amador -
chegou com um embrulho. Entregou-o
a alguém da casa que o levou p'ra dentro
por causa do recibo. O mandarete
ficou sòzinho à espera ali na entrada.
E foi até ao espelho e começou a ver-se
e a ajeitar a gravata. Uns minutos depois,
trouxeram-lhe o recibo, e foi-se embora.

Porém o espelho antigo que já vira,
nos tantos anos em que fora espelho,
milhares e milhares de imagens várias,
ficou contente enfim, cheio de orgulho,
pois recebera em si, dentro de si,
inteira, tal beleza, por instantes.



Não consigo dizer melhor que o velho grego de Alexandria, como é indelével o teu reflexo neste espelho gasto. Um beijo de parabéns, Petra.

carta ao saint
rosas
innersmile
Meu querido: compreendo a tua decepção porque já a senti muitas vezes. Mas acho que essa é outra das lições que o livejournal nos ensina: a resposta nunca é à medida das nossas expectativas. Muitas vezes escrevemos um texto (um conto, um comentário sobre o quotidiano, uma entrada sobre meteorologia) sem grande alma e a resposta é surpreendentemente abundante e positiva. Outras vezes (a maior parte?) pomos o texto on-line quase como se ele fosse uma criança, um filho nosso, e parece que ninguém sequer repara. Não imaginas a quantidade de vezes que eu gritei em pensamentos ‘mas vocês fazem ideia do tempo que eu gastei a escrever isto, do trabalho que tive, da angústia, da dor, para agora nem sequer darem uma olhadela rápida, um simples comentário com um smile?!?!?!’ E o caso agrava-se quando são textos longos, pois o número de leitores é inversamente proporcional ao número de linhas do texto, só que é pior – a maior parte das vezes, um texto longo significa muito mais tempo, muito mais trabalho, muito mais angústia.
Mas suponho que também nisso, o livejournal mais não faça do que imitar a vida. A maior parte das vezes, também a vida nunca responde à medida das nossas expectativas. E a verdade é que nos habituamos a isso, sob risco de passarmos a vida deprimidos e acabarmos (ainda mais) amargos e desiludidos. Aliás, não só nos habituamos a isso, como, nos casos mais felizes, já contamos com essa capacidade de a vida e os outros nos surpreenderem, aprendemos a contar com o factor surpresa. Aprendemos inclusivamente, se a vida for generosa ao ponto de nos dar alguma sabedoria, a refrear a nossa euforia no bons momentos, e a conter a tristeza no maus, não deixando que ela nos abata e esmoreça, e por sabermos que ambas, tristeza e alegria, são sempre relativas e efémeras.
O que em ti é notável (entre milhares de outras coisas, evidentemente), meu caro Saint, é a tua candura, a tua falta de artifício, que te leva, assim tão aparentemente desamparado, a confessar a decepção por ter havido tão poucas pessoas a olhar para o teu texto. E digo que o desamparo é aparente, porque, como tu sabes muito bem, fraqueza não é assumir as nossas fragilidades, mas ao invés tentar escondê-las varrendo-as para debaixo do tapete. Nos meus melhores, e muitos raros, dias, eu tento ser assim (como tu), erguer as fragilidades como um facho e tentar ver nos escuro à sua luz.
Quanto à matéria de facto: o teu conto é brilhante, mas eu sou absolutamente suspeito. Aliás absoluta e triplamente suspeito: porque te amo como só podemos amar um candeeiro iluminado numa noite escura; porque adoro tudo o que tu escreves, não como posição de princípio ou afirmação de fé, mas porque já conheço tão bem o teu estilo, a tua forma de escrever, o modo como os teus textos são o reflexo, em voo, do que tu és; porque me leio nesse conto como se ele tivesse sido escrito para mim. E como foi.
abraço,