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each man kills the thing he wants
rosas
innersmile
Um destes dias, numa das páginas de comentários do livejournal, falou-se do Brad Davies e do filme Querelle, o último realizado por Rainer Werner Fassbinder, e que é uma adaptação de um livro do Jean Genet.
Foi um dos filmes que mais me impressionou na vida, e apesar de não o rever há algum tempo, vi-o tantas vezes e sempre com tanta atenção e intensidade que, apesar de nunca o incluir nas listas que se fazem tipo ilha deserta, é sem dúvida um dos filmes da minha vida.
Mas inesquecível e mesmo a emoção de quando o vi pela primeira vez. Primeiro, por causa da antecipação, aquela coisa de começar a seguir o filme à distância, sabendo qual era o tema, e alimentada pelas imagens do filme que se iam conhecendo. É preciso não esquecer que o filme é dos inícios dos anos 80, quando a homossexualidade ainda não tinha sido importada em Portugal (era mais ou menos como a Coca-Cola!) e o homo-erotismo era, pura e simplesmente, uma invisibilidade.
Quando finalmente vi o filme, fiquei perturbadíssimo (acho que foram os dois filmes que mais me perturbaram na vida, pelo menos na primeira vez que os vi: este de Fassbinder, e o Saló ou os 120 Dias de Sodoma, do Pasolini): nunca até essa altura ( e eu já devia ter para aí uns vinte anos) eu tinha sido exposto a tamanha bomba de pulsão sexual, a uma coisa tão poderosa que ultrapassava o aspecto meramente físico. Não era uma questão de excitação (de tesão, para ser mais explícito), era sim um transtorno, uma incapacidade de conceber, de racionalizar, um impulso erótico, sexual, tão forte. Não estou a dizer, é óbvio, que houvesse qualquer informação, qualquer representação da sexualidade, que eu desconhecesse ou, vá lá, tivesse experimentado. Não, o que era impressionante era a representação do desejo, ou melhor, a intensidade com que eu senti essa representação, como se não houvesse células (e músculos, e sangue, e carne, e terminações nervosas, e cérebro) no meu corpo em número suficiente para eu conseguir entender (entender fisicamente, com o corpo e não apenas com o intelecto) uma pulsão tão forte.
Caro que revi o filme muitas vezes, li o livro do Genet, reflecti e li muito sobre o filme, e hoje a minha relação com o filme é muito mais racional e compreensiva. Mas, num momento íntimo de rara fraqueza, devo admitir que o peito de Brad Davies entrevisto através de uma t-shirt muito decotada, continua a ser, no meu imaginário, um dos mais fortes, profundos e fantasiosos símbolos eróticos.

Ainda a propósito da tal conversa que deu origem a esta entrada, tenho uma certa curiosidade em saber se essa divinização muito diabólica do desejo em Querelle, funcionava apenas com homossexuais, ou se um heterossexual, homem ou mulher, era também tocado por essa pulsão transtornante. Anyone?
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