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antony and the johnsons, concerto na aula magna
rosas
innersmile
Cheguei há pouco de Lisboa, de ir ver o concerto de Antony and The Johnsons, na Aula Magna. Concerto fabuloso, a ultrapassar as expectativas, que eram bem altas.
Primeiro, claro, por causa da voz. Ao vivo, a voz do Antony superlativa-se em relação ao que já conhecíamos dos discos. Eu já o tinha ouvido cantar uma vez ao vivo, quando fez os backing vocals do Lou Reed no concerto em Coimbra, em 2003, e no qual veio ‘à frente’ cantar o Candy Says, que repetiu no concerto de hoje. Mas esta noite foi uma coisa mesmo superior. A cantar ao vivo, ele é mais doce, ainda mais dorido, mais poderoso, mais alegre, mais magoado, mais belo. Uma voz que parece existir quase como uma abstracção, como um epíteto da beleza. Como algo que nos chama de um lugar feliz que há dentro de nós próprios, mas que desconhecíamos até ouvir esse chamamento. Reparei numa coisa estranha: no fim do concerto, as pessoas pareciam felizes, bem dispostas, e isso só se pode dever ao efeito homeopático de uma voz assim tão etérea. E o milagre de a ouvir ao vivo, é que parece inesgotável, parece estar sempre a correr, como uma fonte que se transforma num ribeiro e que quando damos por ela já foi desaguar a um mar intenso, ao mesmo tempo tranquilo e desassossegado. Há uma coisa que pode ser injusta, que é dar-se demasiado relevo à voz em detrimento do cantor que no-la oferece; nunca se pode esquecer que o canto da sereia não existe, e que é o cantor, aquele cantor de carne e osso, que consegue dar sentimento e espessura àquela voz. Ou seja, Antony não é apenas a voz; é sobretudo a maneira como a voz é usada, o modo como canta.
Depois as canções. Os dois álbuns de Antony são de alguma maneira muito diferentes: o primeiro é sobretudo um disco de torch songs, quase como se fosse um disco feito para a Judy Garland que tivesse chegado demasiado tarde. O segundo, I am a Bird Now, é um disco de canções mais arriscadas, menos convencionais, mais experimentais. Outra das características notáveis do concerto foi o modo como as canções são transportas, de um modo muito coerente, quer em relação à estrutura quer aos arranjos, dos discos para a versão ao vivo. Aliás, há uma sequência em que Antony encadeia três canções de seguida (três canções pelo aplauso de uma, dirá ele), sendo que a última é a mítica The Lake, e que é um belíssimo paradigma do que poderia ser todo o concerto, uma sequência quase ininterrupta e muito coerente de canções, como se cada canção valesse por si, mas valesse mais ainda por estar integrada numa determinada sequência. Às canções de Antony, juntam-se, nessa harmoniosa sequência, algumas versões de canções de outros autores (Lou Reed, Leonard Cohen, Nico, são as que me lembro), de que Antony se apropria e personaliza.
Finalmente, e para além da doçura da voz, a doçura do próprio Antony, a sua simpatia, o humor, as brincadeiras com o público, sempre muito contrastante com os temas dolorosos e complexos das canções. Que é outra das características da música de Antony, muito posta em evidência no concerto: um misto de tristeza e doçura, sempre canções profundamente tristes, quando não mesmo lancinantes, mas que nos confortam o coração, o tornam mais suave.
Verdadeiramente incompreensível foi ele não ter tocado o Fistfull of Love. Não se percebe. Não acredito que a canção não estivesse ensaiada, é, do ponto de vista musical, uma canção perfeitamente enquadrada no tom do concerto, e além disso é um dos temas mais populares do segundo disco. Puro capricho de artista? Possivelmente. Ou então vontade de nos deixar de água na boca, ou mais propriamente de língua de fora, à espera do próximo concerto de Antony.
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