May 30th, 2005

rosas

qed

Nota prévia: não sei se o texto que se segue faz muito sentido. A sensação que tenho é que queria chegar a algum lado quando o comecei a escrever, mas que me desviei pelo caminho e cheguei a outro lado qualquer, ou então não cheguei a lado nenhum, que me perdi completamente.


Na revista Xis, que é distribuída aos Sábados com o Público, vinha um destaque sobre o ateísmo. Li os artigos muito em diagonal, mas prestei muita atenção a uma entrevista com o Padre jesuíta, de Coimbra, Vasco Pinto de Magalhães. Quando eu era estudante tinha colegas da faculdade que frequentavam as associações universitárias católicas, e em algumas ocasiões ouvi, sempre com muito interesse, o Padre VPM falar.
Começo por dizer que o ateísmo não me desperta grande interesse, enquanto movimento ou atitude intelectual. Basicamente, acho eu, porque tem uma postura mais de questionamento do que de dúvida, mais de denúncia e ataque do que de perplexidade e interrogação. E no entanto, eu acho que sou ateu. Sim, acho, porque não tenho muita a certeza do que isso seja. Se ser agnóstico é ter dúvidas quanto à existência de deus, eu não sou agnóstico; não tenho dúvidas, simplesmente não acredito que exista uma entidade a que chamamos deus. Não nego, como creio fazerem os ateístas, a existência de deus, não digo ‘deus não existe’. Digo apenas ‘eu não acredito em deus’.
Não tenho aqui a revista comigo, por isso não cito e admito que possa errar na formulação que faço da entrevista do Padre VPM. Mas a verdade é que a entrevista me surpreendeu pela negativa. Acho que a análise que VPM faz do ateísmo é simplista. Eu percebo que seja crítica, mas não percebo porque é que há-de ser simplista. Fundamentalmente, VPM categoriza os ateísmos actuais em grupos, que vão dos marxistas aos adeptos das novas espiritualidades, reduzindo os ateísmos a dois factores principais: o primeiro é que os ateístas negam a existência de deus porque não se pode prová-la cientificamente; e contra este VPM argumenta que é uma visão muito reducionista, já que muito do conhecimento humano ultrapassa a capacidade demonstrativa do método científico. O segundo é que todo o ateísmo é ‘substitucionista’, ou seja, nega a existência de deus, para pôr um outro absoluto qualquer no seu lugar, tratando-se sempre da substituição de um absoluto por outro, desde que este absoluto de substituição não tenha o nome ‘deus’.
Quanto ao primeiro factor, claro que eu estou de acordo que o conhecimento humano, e a capacidade de percepcionarmos o mundo (e o mundo é sempre o mundo dos outros), ultrapassa muito os limites do conhecimento científico, e sobretudo, como diz o Padre VPM, do racionalismo técnico-científico. É óbvio. O problema é que este argumento científico é muito básico e ultrapassado. Sem ofender ninguém, é muito liceal, ou seja, é o tipo de argumento que uma pessoa usa para contestar a existência de deus, quando, no liceu, lhe falam no método científico. Eventualmente, VPM estará habituado a ouvi-lo de estudantes, e por isso achará que é um factor de peso. Mas não é. Está ultrapassado. Não ultrapassado no sentido em que deixou de estar na moda, ou é antiquado, mas ultrapassado no sentido em que ninguém que seja capaz de reflectir o utiliza para negar seja o que for.
Eu não nego a existência de deus porque não posso provar cientificamente a sua existência. Eu não acredito na sua existência porque não a consigo conceber, pura e simplesmente. Ou seja, não consigo conceber, e admito que isso seja uma limitação, uma existência fora da matéria, fora da física e da química, fora da célula, fora do átomo. Eu acredito na possibilidade de fenómenos que a ciência não consiga explicar, mas não acredito na existência de fenómenos fora daquele pó das estrelas de que somos todos formados.
Quanto ao segundo factor, o de que todo o ateísmo mais não faz do que substituir um absoluto por outro, é muito mais interessante, e esse sim leva-nos ao cerne da questão. Admito que o Padre VPM tem razão – a verdade é que todos os ateísmos substituem sempre a possibilidade de deus por um outro absoluto igualmente ordenador e referencial. Faz parte nós, os simples humanos, não conseguirmos olhar o vazio nos olhos, sermos incapazes de nos confrontarmos com a ausência. Em último grau, com a ausência da vida, ou de nós na vida. Por isso, temos sempre de ir buscar o absoluto ao lado de fora, seja um tipo de espiritualidade new age, seja um pensamento marxista de que tudo se reduz às relações económicas. Talvez por isso, como comecei por dizer, os ateísmos não me inspirem. Porque eu sinto, claro, falta de um absoluto, falta de uma ética, de uma axiologia. Falta de alguma coisa que me estruture enquanto ser humano, ou seja, enquanto um ser vivo e enquanto ser vivo social. Mas não penso que me faça falta um absoluto exógeno, exterior, que me seja imposto por uma qualquer entidade suprema ou externa, que esteja fora de mim, ou seja fora do homem e do seu meio. Ou então talvez tenhamos de aprender a substituir um absoluto por um relativo, por qualquer coisa que sejamos capazes de procurar e compreender; não demonstrar, não provar cientificamente, mas compreender, de conceber como qualquer coisa que faça parte de nós e de que nós façamos parte, sem ser necessariamente uma intervenção reguladora exterior, divina, mas pelo contrário profunda e intimamente humana.
O Padre VPM fala, na entrevista, no amor como uma das realidades que existem e não se podem comprovar cientificamente. Ora o amor é esse sentimento que me diz que eu só posso existir plenamente através do outro, que as minhas possibilidades de sobrevivência, enquanto indivíduo e enquanto espécie, enquanto meio ecológico e enquanto entidade espiritual, enquanto entidade cosmológica, dependem sempre, em absoluto, da minha interacção com o outro. Assim sendo, parece-me que o amor pode muito bem ser esse absoluto relativo, esse radical ordenador de tudo que eu tenho de procurar e tentar compreender. Com uma diferença: ele está dentro de nós. Temos de ser capazes de olhar o vazio sem medo, temos de ser capazes de aceitar essa imensa solidão de não haver respostas ‘lá fora’, de não haver um guião escrito previamente, e que dá sentido às nossas vidas. É um pouco desamparado, reconheço. Mas não é inútil nem desnecessário. Não acreditar em deus, não torna a vida sem sentido. Antes a torna mais responsável e intensa e exigente: porque é entre o momento em que a matéria (o pó das estrelas) se organiza para existirmos e aquele outro em que se vai transformar numa outra coisa, é nesse período limitado a que chamamos vida que temos a possibilidade de nos percebermos, de nos interrogarmos, de nos relacionarmos. É um pouco como nas provas de estafetas, em que um atleta passa o testemunho a outro: é só nesse breve momento em que o testemunho é passado de uma mão para a outra que temos a nossa hipótese de olhar para a corrida e de a entender. Onde é que deus está nesse momento?