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scholl e os anjos, no tubo
rosas
innersmile
Uma noite tão especial.
Primeiro por causa da casa. Da Música. Simples, funcional, elegante, moderna. O auditório fabuloso: um tubo com duas enormes janelas nas pontas, uma virada para a cidade, outra voltada para fora. Assim, só assim. O resto da Casa é a forma como o edifício se estrutura à volta do tubo, com salas, escadas, halls, bares, apoios.

Depois, um concerto que foi dos melhores a que eu assisti na minha vida. Eu sei que sou muito encomiástico, mas, caramba, esse é o meu privilégio!
O Andreas Scholl não é só a voz celestial, assim uma espécie de via de comunicação com o céu. Além disso, tem uma presença em palco firme, é simpático, entrega-se, mas com elegância. A acompanhar, em cravo e pianoforte, Markus Markl, que, por si, justificaria o recital. O programa não podia ser melhor, quanto aos compositores. Quer dizer, não podia mesmo ser melhor: Haendel (três cantatas e uma chaconne, peça instrumental), Haydn (três lied, um deles com um poema lindíssimo, que ponho aqui um dia destes) e, como se o céu não fosse já lugar bastante, Mozart (dois lied, e uma fantasia, intrumental).
Mas o melhor estava guardado para o fim. No primeiro de três encores, Scholl interpreta uma das minhas composições preferidas, o largo Ombra Mai Fu, da ópera Xerxes. Já escrevi uma entrada (na verdade um largo e um adágio) sobre esta peça de Haendel, aqui no innersmile (há muito tempo, muito mesmo), apesar desse texto ter sido inspirado por uma versão diferente do largo, cantada por outro contratenor. Mal reconheci os acordes iniciais, no pianoforte, fiquei em êxtase. Depois, quando o Scholl começou a cantar, comovi-me. Um gajo pensa assim: «porra, pá, és tu que estás aqui, sentado, a ouvir esta merda que é das coisas mais sublimes que tu já ouviste, e estás mesmo a ouvi-la enquanto aquele tipo lá em baixo convoca o que o espírito humano tem de mais elevado para te dar a ti este breve e intenso sabor do paraíso. Ó meu cabrão, és um felizardo do caraças, respira lá à vontade, que já ganhaste mais este momento de felicidade absoluta e redentora. Vês?, a vida é isto». Pronto, é mais ou menos isto que um tipo pensa, de lágrimas nos olhos, quando tem o privilégio de ouvir, ao vivo, o Andreas Scholl a cantar o Ombra Mai Fu.

E a prova de que é um momento sem paralelo, é que sai para a rua, para a noite, e parece que de repente está a viver noutra cidade, noutro país, noutra vida. Atravessa a avenida e, no passeio do outro lado, olha para trás, e o pessoal a descer a escadaria da Casa da Música faz lembrar a cena dos ‘Encontros Imediatos’ em que os extraterrestres descem da nave para virem buscar o Richard Dreyfus. E faz sentido, porque já que é outra cidade e outro país, é também outro planeta.

E, não me interessa, vão gramar outra vez com o Largo e Adágio que eu escrevi para o Ombra Mai Fú, do Haendel. Porque este journal é meu, tal como é minha a felicidade esta noite.



LARGO E ADÁGIO

Se algum de vós for ao meu velório, diga aos estranhos que por lá estiverem a interromper-me o descanso profundo com improváveis anedotas a meu respeito, que, últimas vontades, só tinha uma: ser enterrado ao som de ombra mai fù, o largo de Handel cantado por David Daniels.
A minha derradeira esperança é a de que quando Daniels começar a cantar a prolongada ombra, os anjos do céu, nús, loiros e roliços como os braços das mulheres de Rembrandt, assomem por entre as núvens e, divertidos e apiedados de me verem tão desamparado, me levem para os magníficos salões desertos onde brincam à música por toda a eternidade.
Depois, antes de abandonar o cemitério (se esse de vós for ainda mais piedoso do que os anjos e não me deixar abandonado à companhia de estranhos de óculos escuros), procure a sombra de um plátano e sente-se. Se sentir que jamais outra sombra de árvore, querida e amável, foi mais suave, esqueça depressa o meu rosto e os meus olhos. Estarei feliz.

~~ * ~~


Se algum de vós for ao meu velório
diga aos estranhos que por lá estiverem
a interromper-me o descanso profundo
com improváveis anedotas a meu respeito
que, últimas vontades, só tive esta: ser
enterrado ao som de ombra mai fù.

A minha derradeira esperança na eternidade
é a de que quando o cantor começar a cantar
a prolongada sombra os anjos do céu
nus, louros e roliços como as mulheres de Rembrandt
assomem por entre as nuvens
e divertidos e apiedados de tal desamparo
me levem para os salões dourados onde brincam
à música por toda a eternidade.

Antes de abandonar o cemitério
esse de vós que for ainda mais piedoso do que os anjos
procure a sombra de um plátano e sente-se. Se
ombra mai fù
de vegetabile
cara ed amabile
soave più
,
esqueça depressa o meu rosto e os meus olhos.
Estarei feliz
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anakin's blues
rosas
innersmile
Anakin had a crazy dream one day
He thought he might become the Darth Vader
Palpatine showed him the way
Iron legs, mask on his face
He said, Hey Ana
Take a walk on the dark side
He said Hey honey
Take a walk on the dark side
And all the Jedi knights go
Doo do doo do doo do do doo
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