May 28th, 2005

rosas

a home at the end of the world

Não li o livro de Michael Cunningham que está na origem deste A Home at the End of the World, mas suponho que seja um projecto próximo do livro, uma vez que o argumento é do próprio escritor. Talvez isso explique o falhanço e a fragilidade deste filme de Michael Mayer. Mas é, de certa forma, esse falhanço, a falta de eficácia do filme enquanto estrutura narrativa, a fragilidade das personagens, às quais falta estatura e sopro, é, dizia, esse falhanço o maior triunfo do filme, porque o reduzem àquilo que ele tem de essencial: uma crença inabalável na capacidade salvadora do amor, o amor como o lar possível e definitivo, a casa no fim do mundo.
Provavelmente, eu estaria muito susceptível a este filme. Afinal de contas, ele ensaia a possibilidade de o amor existir apesar, ou independentemente, das orientações sexuais e dos géneros. O filme tem um olhar queer, mais do propriamente gay, na sua proposta de uma família alternativa, um trio que consegue (consegue?) realizar um projecto harmonioso de família fora dos padrões da sexualidade dita normal. Por isso, digo que, à partida, eu seria susceptível ao filme, ele tocar-me-ia num ponto fraco, mostrar-me-ia a encenação de uma possibilidade, ainda que fosse muito improvável. E a verdade é que o filme me comoveu imenso, há muito tempo que um filme não me comovia assim. Mas na verdade o que me comoveu, mais do que a crença numa espécie de redenção familiar fora, ou ao lado, da heterossexualidade, foi o facto de o filme, sendo falhado, nos mostrar fatias, flashes, clarões, da possibilidade do amor. Tout court, ou seja, não do amor homossexual ou heterossexual, ou, para o efeito, pansexual, mas do amor, apensa ele, somente o amor. E é por isso que o filme é tão comovente. Porque paira sobre todo o filme a iminência do fim, está escrito naquela história, desde os planos iniciais, a sua tragédia. E no entanto o filme mostra como a felicidade é possível, como ela vai florescendo mesmo no campo mais improvável.
Eu sei que a banda sonora do filme é um recurso narrativo para nos ir situando ao longo do tempo, mas devolveu-me tantas canções fabulosas, tantas daquelas canções a partir das quais conseguimos quase traçar uma biografia.
O filme assenta em quatro personagens, e deve muito à eficácia, ou não, das interpretações. Infelizmente também aqui o filme não é muito conseguido. A Robin Wright Penn talvez seja que assume com mais força a personagem, mas é mais ou menos notório que ela passa o filme à procura de um sentido para a sua personagem, há ali uma hesitação muito grande que compromete a verosimilhança da personagem. A Sissy Spacek passa sempre bem, e é, de todas, a personagem que melhor resulta, talvez porque seja a menos exigente. O Dallas Roberts tinha um grande desafio, pois pela sua personagem passa muita da ambiguidade que é o cerne desta história e destas personagens. Finalmente o Colin Farrell… bem, a personagem de Bobby é muito complicada, porque tem ao mesmo tempo uma grande linearidade, uma simplicidade, mas que nunca é transparente; uma personagem assim, que é o catalisador de todos os afectos, o sedutor apesar de si próprio, mas que tem sempre uma transcrição quase literal, precisava de um grande actor, de um enorme actor, que fosse capaz de registar todas aquelas subtilezas e matizes que têm as pessoas de carne e osso, de carne e alma, sob pena de a personagem resultar um bocado apatetada. E como todos sabemos, o CF não é um actor assim, que seja capaz de se ultrapassar, que seja capaz de dar o fôlego da vida às personagens que encarna. E é pena. Porque algum, se não a maior parte do extremo encanto deste filme, da sua irresistibilidade, reside no facto de Colin Farrell ser muito bonito, ser muito físico, ter um corpo que apetece amar, e que serve na perfeição um personagem cuja maldição é a sua maior bênção, ou seja o facto de só ser capaz de despertar nos outros o amor.