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traudl junge: até ao fim
rosas
innersmile
Comprei o livro porque o encontrei na feira do livro na altura em que vi o filme e senti vontade de saber mais, de aprofundar a experiência do filme, que me marcou. Falo de Até Ao Fim, o livro de memórias escrito por Traudl Junge, a secretária de Hitler que o acompanhou até aos últimos momentos de vida, no bunker da Chancelaria do Reich, em Berlim, e que foi um dos livros que esteve na base do filme A Queda.
Mas foi um livro que me custou a ler, aliás foram várias as vezes que pensei abandoná-lo. Desde logo porque não achei a escrita interessante, não é um daqueles livros que dão prazer em ler só pela música das palavras. Mas sobretudo porque me incomodou muito. Incomodaram-me as páginas intermináveis de descrições dos vários quartéis-generais que Hitler foi ocupando ao longo do ano e meio em que a Traudl trabalhou para ele, ou dos jantares e dos chás, das conversas, dos passeios. Houve uma altura no princípio do livro em que temi deixar-me fascinar por um certo requinte na descrição do quotidiano do fuhrer, mas não, não houve esse perigo: ou o livro está extraordinariamente pobre, ou então aquilo era mesmo de uma pobreza de espírito tenebrosa. Apesar de a Traudl se referir bastas vezes ao carisma magnético de Hitler, o livro não o consegue transmitir, e ficamos ainda mais perplexos com o sucesso extraordinário de um homem medíocre, sem rasgo ou visão, alimentando de forma obsessiva um ego megalomaníaco, mas tosco.
Outra coisa que me incomodou no livro, mas que não consigo apontar com clareza, é o modo como funciona a culpa da Traudl. Grande parte do livro, a inicial, foi escrita logo a seguir aos acontecimentos, e, de certa forma, nota-se que a memória da Traudl é mais objectiva, ainda muito centrada nos factos. A parte final, que é decisiva quanto ao desfecho de Hitler e ao clima de descontrolo irracional que se viveu no bunker nos últimos dias do reich, foi escrita muito posteriormente, e já está muito permeabilizada pela culpa, ou melhor, pelos processos de expiação da culpa e de auto-justificação pelos quais a Traudl teve de passar para conseguir continuar a levantar-se todas as manhãs ao longo da sua longa vida. E isso também incomoda. Claro que é compreensível - se partirmos do princípio que qualquer um de nós poderia ter passado por uma experiência tão pesada e infame, percebemos que só é possível continuar a viver se conseguirmos justificar o nosso passado, iluminá-lo de alguma forma. A Traudl escolheu focalizar a sua culpa em Hitler, muito provavelmente porque não poderia ser de outra maneira. As proporções do desastre e a enormidade da besta, a isso conduzem. Agora o que é perturbador, é que tenha focalizado a expiação dessa culpa no Hitler dos últimos tempos, quase dos últimos dias, esse Hitler que estava em total perda de controlo, a despenhar-se violentamente do alto do seu sonho de glória e terror, e que decidiu arrastar a Alemanha, a nação alemã, atrás de si para a cova funda. O que é perturbador é que desse processo de expiação de culpa sai incólume o outro Hitler: aquele que teve um sonho de império fundado na glória e no terror, que decidiu construí-lo, e que teve a acompanhá-lo nesse empreendimento a grande maioria dos homens do seu tempo e do seu lugar.
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