May 18th, 2005

rosas

o homem do piano

A história vinha na última página do Público de ontem: um homem, novo, alto, de cabelos claros, vestindo um fato amarrotado e encharcado, foi encontrado a vaguear, completamente amnésico, numa rua de uma pequena cidade portuária de Kent, em Inglaterra. Como ele não falava, puseram-lhe um papel e um lápis na mão, e ele desenhou um piano de cauda. Sentaram-no à frente de um piano e o homem começou a tocar, o que fez durante duas horas e com virtuosidade. Dizem os relatos que o seu olhar é triste e que a maior parte do tempo está muito perturbado. Dizem ainda que nunca se separa de uma bolsa com partituras. E que as peças que toca são desconhecidas, presumindo-se que sejam da sua autoria.

Seguramente, um destes dias surgirá uma explicação para o caso. Com toda a probabilidade, será uma explicação plausível, ou mesmo prosaica. A história desaparecerá das páginas dos jornais, com a mesma fugacidade com que surgiu na última página de um jornal de véspera.
Mas enquanto essa explicação não surge, esse homem amnésico que toca incessantemente piano, abriu uma fractura no nosso quotidiano. Por breves dias, ele mostra-nos um mundo que não compreendemos, um mundo feito de coisas que são, que são somente, que são, assim, sem explicações. E por um momento, perpassa-nos pelos olhos (tristes? melancólicos? vazios?) essa nostalgia de sermos um homem sem memória que toca sem cessar num piano melodias inventadas.