May 15th, 2005

rosas

the life aquatic

Não percebo bem porque é que The Life Aquatic, o mais recente filme de Wes Anderson, passou mais ou menos despercebido, e não recebeu o destaque e os favores da crítica, como aconteceu com os filmes anteriores. Para mim, é o melhor filme de WA, achei-o assim muito perto do genial. Um universo narrativo muito coerente, quer com o universo cinematográfico do realizador, quer na lógica do próprio filme: tudo ali faz sentido, não há nada que seja supérfluo, que esteja a mais. E esse universo narrativo está muito depurado, muito trabalhado, todas as pontas arredondadas, não se vê ali uma costura, um alinhavo.
E depois WA tem aquele humor muito seco, quase cortante, mas habitado por uma dose tão grande de ternura, pelos personagens, pela história, pela própria narrativa, que não há no filme a mais leve ponta de cinismo, nenhuma personagem sai maltratada, nem sequer Hennessey, o arqui-inimigo do grande Steve Zissou. E o filme é tão cómico, mas de uma comédia fina, superior, mas ao mesmo tempo muito físico, muito plástico.
Os actores são fantásticos, e Bill Murray tem um desempenho fabuloso, repousa na maneira como ele veste a personagem de Zissou muita da eficácia do filme. Ao seu lado, e além do habitual Owen Wilson, a sempre ‘étonnante’ Angélica Houston, a Cate Blanchet, o Willem Dafoe, o Jeff Goldblum, e o brasileiro Seu Jorge, cujo papel principal na equipa de Steve Zissou parece ser o de pontuar a narrativa com saborosas versões em português de canções de David Bowie. Parece estranho, não é?, mas a verdade é que faz um brutal dum sentido ali no meio do filme, dá um toque de lirismo àquele ambiente louco e feérico.

E já que estamos com a mão na massa. Aproveito para registar que comprei um cd lindíssimo, The Melody at Night, With You, um solo do Keith Jarrett composto de 11 standards (na verdade, são 9 e mais dois tradicionais). Um piano muito lírico, sempre muito perto das melodias originais mas sem prescindir daquele respiro livre das pianadas do Jarrett. Tenho ideia de ter lido, ou seria visto?, algures, que Jarrett gravou este disco durante uma fase complicada em que se debateu com um sindroma de fatiga bastante severo, e que o disco surgiu do seu retomar do piano, em sessões domésticas dedicadas à mulher.
Para completar, um livro de António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, que conta a história de amor, longa mas nunca consumada, entre o poeta e Ana de Castro Osório, que foi, juntamente com outras pessoas da sua família, todos amigos do poeta, a responsável pela divulgação da obra poética. Para além da prosa, o livro vem recheado de fotografias, fac-similes de cartas e de outros documentos, o que o tornam numa verdadeira jóia. Pessanha é um dos meus poetas favoritos, ou não fosse o ícone aqui do innersmile retirado do autógrafo daquele que é o meu poema preferido do poeta.