?

Log in

No account? Create an account

orfeu
rosas
innersmile
No seu disco recente que dedica às canções com palavras de Vinícius de Moraes, Maria Bethânia diz o Monólogo do Orfeu. Eu já conhecia, dito pelo próprio Vinícius, no famoso disco que reuniu o poeta e Amália num serão em casa desta. E quando Vinícius diz, as palavras parece que se agigantam, ganham estatuto e estatura, são como que transcrições essenciais do mundo. É um monólogo lindo, pungente, a transbordar poesia e amor por todas as sílabas. E, como em tudo neste disco, Bethânia consegue transfigurar o texto, e dar-lhe ainda mais ternura, e ao mesmo tempo uma quase dor, uma pontinha de mágoa, de sofrimento, a brilhar lá no canto mais escuro.
O monólogo é todo ele lindíssimo, mas há um trecho que é demais, como é possível um tipo, usando palavras, aquelas palavras que nós também usamos no nosso dia a dia, criar uma coisa assim tão poderosa:

A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direcção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada!


O radicalismo da frase ‘Qual mãe, qual pai, qual nada!’, uma coisa absoluta, mesmo com uma ponta de violência. E depois aquela coisa gigante. Digam aí em voz alta: ‘A beleza da vida és tu, amada. Milhões amada’. Um tipo diz isto em voz alta e parece que as montanhas se movem, que as águas do mar se separam, que os homens choram como crianças e as mulheres desfalecem de emoção.
Fogo, grande Vinícius...


O Monólogo termina com estes dois versos:
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo!

Um abraço ao Bruno