May 8th, 2005

rosas

choveu prata

Nicolau Breyner decidiu regressar aos palcos e fê-lo com 'Esta Noite Choveu Prata', uma peça em dois actos do brasileiro Pedro Bloch. Na verdade são três curtos monólogos de três personagens: um português e um italiano, que no primeiro acto falam sobre a vida e a amizade com um velho actor brasileiro, cuja fala ocupa todo o segundo acto.
Interessante foi Nicolau ter decidido correr literalmente o país todo apresentando a peça antes de a mostrar em Lisboa. Gostei muito de o ver em palco, é um daqueles actores que ocupam o espaço, que conseguem transformar o ar do palco numa coisa palpável, com densidade. O texto é interessante, se bem que me pareceu um pouco datado. Não no sentido de que esteja fora de moda, mas porque de alguma forma encerra um conjunto de valores e referências que não dirão muito à sociedade actual. Não é bem isso... Há neste texto uma pureza, uma limpidez de olhar, mesmo uma ingenuidade, que são marcadas pela época em que a peça foi escrita (creio que nos anos cinquenta).

É boa esta coisa recente de o teatro sair da capital e correr o país. Voltámos aos tempo antigo da itinerância, em que as companhias faziam tournées pela província! Há uma série de peças a correr cidades e vilas. Claro que muitas destas peças assentam numa estratégia comercial, que visa rentabilizar o factor de reconhecimento dos actores possibilitado pela televisão, nomeadamente pelas novelas. Mas tudo bem, pelo menos assim as novelas servem para alguma coisa. E quanto ao facto de ser teatro comercial, ainda bem, é para isso que ele existe. Durante demasiado tempo em Portugal houve o preconceito contra o teatro comercial, como se só o teatro dito sério, de ensaio e pesquisa, tivesse justificação. Claro que tem, e algum do melhor teatro que eu vi na vida foi aí, no chamado teatro experimental. Mas o teatro comercial, que vive do público e para o público, é o verdadeiro barómetro do estado de saúde da arte cénica num país. É esse que dá emprego a actores e técnicos, que possibilita o surgimento de dramaturgos e encenadores. Que bom que esse teatro tenha público. E que bom que ele venha passear à província para a gente o poder vêr.