May 6th, 2005

rosas

springsteen

O primeiro disco do Bruce Springsteen que conheci foi o Darkness on the Edge of Town, que o meu amigo Zé Henrique comprou, quando ele foi editado, em finais dos anos 70. Na altura, como já tenho aqui contado, os discos que comprávamos eram sempre muito partilhados, e, por isso, esse disco passou longas temporadas em minha casa. Além disso, como havia muito pouca informação disponível, os artistas eram sempre muito mitificados, e o nosso gosto era sempre alimentado mais por lendas e histórias do que propriamente por factos, e o lado sombrio deste disco e o estofo de rock’n.roll do Bruce alimentaram furiosamente a nossa imaginação.
O primeiro disco que eu comprei do Bruce foi o Nebraska, que é já de 1982, um álbum que me ensinou muito acerca de narrativa e dramatismo, mas sobretudo de angústia, de desolação e de melancolia. E de como as nossas vidas se podem estilhaçar como a superfície gelada de um lago. E de como o amor fraternal pode ser tão mais doloroso quanto mais forte.
Entretanto, houve dois discos, um anterior a Darkness, e o outro intermédio entre aqueles dois, que eu não conhecia, apesar de serem absolutamente míticos. Falo de The River, um duplo de 1980 que contém alguns dos maiores clássicos de Springsteen, e de Born To Run, que não sendo o primeiro álbum de BS, foi o que lhe deu estatuto de ‘estrela do rock’n’roll’. Diz a lenda que o crítico Jon Landau escreveu na revista Rolling Stone, ao assistir a um concerto: “I’ve seen the future of rock’n’roll and it’s name is Bruce Springsteen”. Landau tornou-se manager do Springsteen e partilha com ele o sucesso de Born To Run.
Passei grande parte do ano de 1984 em Londres. No Verão, vim passar três semanas de férias a Portugal, e quando regressei, no final de Agosto, tinha explodido o Born in the Usa, que tornou Springsteen numa mega-estrela em todo o mundo. Eu aproveitei para comprar o Born to Run e o The River.
Ainda a propósito do Born in the Usa, e depois de regressar à faculdade, tive grandes discussões com os meus amigos marxistas, que não percebiam que o disco era uma critica profunda e amarga ao capitalismo de Ronald Reagan, e o condenaram apenas por causa da iconografia americana, que o disco inegavelmente consagrou. Mal sabíamos todos que ainda a década de oitenta não chegara ao fim, e a maior parte desse pessoal me ultrapassaria todo pela direita, com tanta velocidade que eu até fiquei um pouco tonto.
O passo seguinte desta paixão bruceana, foi a edição do álbum Live 1975-1985, um caixote com não sei quantos discos de vinil, e que eu ouvi até à exaustão. Entre as inúmeras pérolas, uma versão de Because The Night, uma canção poderosíssima que tinha sido gravada nos ‘bons velhos tempos’ pela Pati Smith. Foi ainda graças a este disco de Springsteen que eu me apaixonei pelo Tom Waits; apesar de já conhecer e gostar do TW desde os anos 70, desde The Piano Has Been Drinking (do álbum Small Change), de Swordfishtrombones e sobretudo da banda sonora do One From The Heart, foi a versão de Springsteen de Jersey Girl que me fez ir a correr comprar o álbum Heartattack and Vine, iniciando um estado de paixão que nunca esmoreceu.
Curiosamente, o que esmoreceu, a partir da ressaca desse álbum monumental, foi a minha paixão por Bruce Springsteen. Não sei se foi a intensidade desse arrebatamento que queimou, se fui eu que me desloquei para outro sítio qualquer, a verdade é que desde essa altura nunca mais me interessei verdadeiramente pelos discos seguintes do Springsteen. Ainda comprei, na fase vinil, o Tunnel of Love, e, já em cd, o Human Talk e o Lucky Town, que saíram ao mesmo tempo, e tenho o The Ghost of Tom Joad, que me ofereceram. Fui, obviamente, assistir ao concerto em Alvalade, para aí o último concerto em que fui para a relva (bye-bye juventude, agora envelheci e vou para a bancada).
Mas nunca mais tornei a ouvir Bruce Springsteen como ouvi nesses perto de dez anos que duraram entre a edição de Darkness on the Edge of Town e o Live 1975-1985. E o que é mais estranho é que já nem ouço as canções de Springsteen dessa década. Os vinilos ficaram na casa dos meus pais e nunca comprei a versão cd desses álbuns. Mas o que é curioso é como a minha memória permanece intacta. Como ainda guardo inteirinho o sabor dessa paixão. E como, apesar de já não me devorar o fogo dessas canções, ainda me incendeia por inteiro a memória delas.