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longe de manaus
rosas
innersmile
Faltam-me umas poucas dezenas de páginas para terminar a leitura de Longe Manaus, o mais recente romance de Francisco José Viegas. O livro volta a ser protagonizado pelo inspector da Policia Judiciária do Porto, Jaime Ramos, e acho que em nenhum dos anteriores protagonizados por Ramos, a personagem esteve tão apurada como neste. Talvez porque o livro se centre muito poucas vezes no próprio Ramos, apesar de ele ser o protagonista da quase totalidade dos curtos capítulos do romance. Nos anteriores romances Ramos era muitas vezes o protagonista, no sentido de ser o centro da narrativa: o narrador descrevia a sua vida, a sua relação com Rosa, a sua casa, os cozinhados, os livros. Neste Longe de Manaus, essas descrições são sempre muito fugazes. Apesar de estar quase sempre em cena, raramente a narrativa se centra em Ramos, mas vamos acompanhando sempre o seu raciocínio, a sua perspectiva sobre as coisas, a maneira como olha para vítimas e suspeitos, o modo esparso como os elementos se vão reconstituindo no seu espírito. E desta forma ficamos a conhecer melhor o inspector do que através da acumulação de informação sobre si mesmo. No fim do livro estamos muito íntimos de Ramos, estamos, na verdade, colados por dentro à sua pele, sentimos as suas angústias e incertezas, partilhamos o seu olhar que é simultaneamente desencantado mas esperançoso.
Acho que é sempre injusto, e infeliz, pedir a um livro mais do que o que ele está disposto a dar. Tenho lido por aí alguns encómios que me parecem um pouco desajustados, talvez efeito do entusiasmo promocional da editora. E, como digo, acho que algumas dessas notas, como a de reclamar para o livro o mérito de ser o grande romance sobre a solidão portuguesa, são injustas para o livro. Não porque o livro seja menos do que isso, pelo contrário, mas porque é outra coisa. Se Longe de Manaus tem um lugar no panorama literário português, não é por ser um ‘fresco admirável sobre a condição humana ou sobre a duvidosa arte de ser português’. É antes porque se trata de um romance muito bem escrito sobre um personagem fascinante, e por onde perpassa muita da ‘realidade agora a cores’ que conhecemos do nosso dia-a-dia. É também porque é um livro divertido, que se lê com aquela atenção lúdica que só (ou quase só) os policiais são capazes de convocar.

O livro leva-nos através uma geografia onde se foi inscrevendo a história recente de Portugal, e que tem os seus eixos fundamentais em três lugares: o Porto, Luanda, e Manaus. Neste momento da leitura, a poucas páginas do final, valem ainda todas as perguntas: porque morreram e quem matou Álvaro Severiano Furtado, Helena Gomes e Shirlei? Onde está e porque desapareceu Salim Furtado? Qual o mistério de Mara Salimah, que foi quem primeiro entrevimos, entregando-se a um perigoso jogo? Quais as perguntas para as quais Henrique Praia Portocarraro parece saber as respostas?

Trata-se, na minha opinião, do melhor romance de FJV, ou melhor, daquele que mais me agradou e mais gozo me deu a ler. Pena que, pelo menos até cerca de quarenta páginas do fim, Filipe Castanheira não tenha aparecido; mas se isso prova alguma coisa, é o crescimento e amadurecimento da personagem Jaime Ramos, que ganha neste romance uma densidade, uma profundidade psicológica, muito rica. Este livro ‘policial’ não precisa de uma caução de seriedade, não é apoucado pela sua qualidade de romance policial. Até porque é um dos melhores livros portugueses dos últimos anos.
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