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rosas
innersmile
Numa entrevista publicada na revista do Expresso da semana passada, a actriz Glicínia Quartin explica que, nascida no seio de uma família republicana e anarquista, foi educada «contra os padres, contra as touradas e contra o fado». Conta depois que assistiu a duas ou três touradas («dava-me sono»), e que aprendeu a gostar tanto de fado que o cantava em casa.
Quanto aos padres, afirma que se foi reconciliando e que leu a Bíblia. E diz mais: «Acho que as pessoas são religiosas porque foram educadas nisso. Eu, como não fui, não tenho necessidade de Deus. Não discuto se existe ou não. Não é algo que me preocupe. Deus, na verdade, não me faz falta, nem para ser melhor espiritualmente». E termina esta parte da entrevista com esta frase espantosa: «É possível ter princípios éticos não necessariamente fundados na religião».
Eu não tive a circunstância de Glícinia, e fui educado religiosamente. Passei parte da adolescência a tentar livrar-me dessa premissa, e foi já em idade adulta, depois de um momento de fraqueza quando estive doente, que cortei, penso que definitivamente, com a religião e, de forma mais radical, com a crença em deus.
Desde então, e foi por isso que as palavras de Glicínia Quartin me impressionaram, toda a minha vida adulta, a minha vida espiritual naturalmente, tem sido à procura dessa outra realidade na qual seja possível fundar uma ética de vida. Durante muito tempo julguei que ela se fundava na bondade, que é a possibilidade de sermos felizes através da felicidade dos outros, proporcionando felicidade aos outros. Hoje, talvez ache, mas não tenho a certeza, que a bondade é apenas uma manifestação, uma erupção, de qualquer outra coisa, mais misteriosamente humana e profunda, e que não consigo de todo nomear.
Qualquer coisa que seja um misto de biologia e de cultura, ou seja, que resida num comportamento, ou numa reacção, fisiológica, cerebral, mas que também resida na nossa memória cultural, naquele conjunto de saberes elementares que herdamos através da educação.
E que só aí, nisso que temos de mais fundamental e precário, porque está dentro do nosso corpo finito e nos invisíveis fios que nos ligam aos outros, é possível fundar uma ética que nos suporte e dê sentido, no vertiginoso percurso que começa e termina no pó das estrelas.