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not that there’s anything wrong with it
rosas
innersmile
Um dos fenómenos interessantes da blogosfera lusa mais recentes, foi o aparecimento do Murcon, o blog do médico psiquiatra Júlio Machado Vaz. Desde logo porque revelou que, também neste meio dos blogs, JMV é um comunicador. Depois, porque me revelou uma faceta para mim insuspeita: a de que JMV é assim uma espécie de guru (involuntariamente, estou certo) de uma certa mentalidade portuguesa, caracterizada por uma encruzilhada entre um modo de ser provinciano e uma vontade de ser liberal e moderno. Finalmente interessante, porque se tornou rapidamente num blog muito popular e é vítima de um certo desprezo por parte da nobreza e do clero da blogosfera nacional, que olham para o Murcon com aquele misto de superioridade e dor de cotovelo que é tão típico da tal mentalidade lusa.
Tenho de dizer que aprecio imenso o JMV, primeiro porque ele é realmente um óptimo comunicador e dá prazer ouvir o seu discurso ao mesmo tempo sério e coloquial, cientifico e bem-humorado, estruturado e descomplexado. Mas aprecio-o igualmente porque acho que ele tem um discurso acerca da homossexualidade absolutamente notável, de uma transparência e uma clarividência muito raras. Acho que é dos poucos especialistas em sexologia, e de uma forma geral no comportamento humano, que coloca a homossexualidade no seu devido lugar, nem mais nem menos, nao a demoniza mas também não a paternaliza.
Preocupa-me um pouco esta coisa do clube de fãs, porque acho que ele se pode queimar, é muito difícil fazer o que ele está a fazer no Murcon: apesar de se manter essencialmente fiel ao seu estilo, àquela duplicidade (no melhor sentido) entre o registo íntimo e pessoal, e o registo mais imparcial do expert, os blogs são muito interactivos, e há uma enorme tendência para os leitores se apropriarem do meio, e isso pode ser perigoso. Enfim, suponho que JMV tem a cabeça suficientemente estruturada para conseguir sobreviver a esta experiência sem se deixar queimar ou diluir.

Uma das bocas mais famosas do Seinfeld apareceu num episódio em que alguém julgava que o Seinfeld e o George eram namorados. A boca, claro, era o famoso «not that there’s anything wrong with it», e espelhava o embaraço que os personagens sentiam em se quererem livrar eficaz e rapidamente do estigma da homossexualidade mas sem quebrarem a barreira de vidro do politicamente correcto. Assim negavam, com um misto de horror e vergonha, a possibilidade de serem homossexuais, mas acrescentavam de imediato «not that there’s anything wrong with it», não fosse alguém pensar que eles eram homófobos!
Lembrei-me disto porque recentemente no Murcon se discutiram temas que, de forma mais ou menos directa, chamavam a homossexualidade à colação. E ainda que seja difícil ler, no sentido mais nobre do termo, no meio de dezenas (ou centenas, como já tem acontecido) de comentários, a maior parte deles ruído puro, e uma parte significativa de um nível intelectual muito primário (e deus e ratzinger sabem que eu não sou nada snob nestas coisas, nem tenho a mania que sou melhor ou mais esperto do que todos os outros).
Ia eu a dizer que apesar da torrente de comentários, chamaram-me a atenção uns comentários absolutamente ‘seinfeldianos’ e que são tão típicos de um modo à século XXI de ser português, e que é aquele comentário deste género: “Eu não sou homossexual, mas acho que somos todos iguais e que ninguém deve ser descriminado” Mas há versões mais hard deste comentário, que podemos caricaturar assim: “Eu acho que todos devemos ser por natureza bissexuais, mas eu por acaso sou só heterossexual”.
Acho piada a esse tipo de cenas, a essa necessidade de afirmar logo que não se é homossexual, não vá alguém pensar que, pelo facto de um tipo não achar que os homossexuais devessem morrer queimados, possa ser confundido com um. Mostra bem que há sempre um certo hiato entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. E que a homofobia, mesmo que balizada pelo politicamente correcto, ou, mais benevolamente, pela boa consciência, está demasiado interiorizada, faz parte da estrutura mental mais essencial e estruturante da maioria das pessoas. Mesmo de muitos homossexuais.

espírito santo da asneira
rosas
innersmile
Na sua coluna no Público, o Miguel Sousa Tavares termina o texto com um post-scriptum sobre a sentença do tribunal açoreano que não aplicou o art.º 175 do Código Penal no chamado ‘caso farfalha’. E, como quase sempre que fala de homossexualidade, o MST espalha-se e diz disparates, alguns deles com particular gravidade. Como o site do Publico agora tem partes de acesso restrito, não vale a pena por o link, mas de qualquer forma, o MST diz uma coisa que é mentira: «tal artigo pune com maior gravidade os actos homossexuais praticados com menor relativamente a actos heterossexuais». Não é verdade, a moldura penal é a mesma, o que muda são os actos constitutivos do crime, que são valorizados diferentemente consoante se trate de actos homossexuais ou heterossexuais. O texto do MST termina com a seguinte pergunta: «o tribunal achará que para um rapaz de dez anos, por exemplo, é igual o trauma de ser abusado por uma mulher ou homem?» Eu diria que a resposta é sim. Mas será que MST considera, então, que o trauma de um rapaz de 10 anos abusado por um homem é maior do que o de uma rapariga de 10 anos abusada por um homem?. Mas a má vontade do MST nesta matéria é tanta, que ele, na precipitação de escrever sobre o assunto, e sem ter tempo para reflectir, nem se lembrou que estamos a falar de actos sexuais com adolescentes, ou seja, com menores entre os 14 e os 16 anos, e só em relação a estes casos o Código Penal regula distintamente a prática de actos homo e heterossexuais. No caso de um menor de 10 anos, a lei não faz, como é óbvio, essa distinção. Porque para a lei, e muito bem, e ao contrário da opinião do MST, um abuso sexual praticado a uma criança de 10 anos, seja por um homem ou por uma mulher, é sempre igualmente traumatizante.


O que vale é que na mesma página onde MST debita tanta parvoíce, vem um artigo notável e hilariante do Eduardo Prado Coelho intitulado ‘Inspirações’. EPC do melhor, com aquela ironia muito fina e subtil dele, a propósito da afirmação de Marcelo Rebelo de Sousa de que o espírito santo inspirou a escolha do novo papa. Vale a pena ler. Como agora os conteúdos da edição impressa do Público são condicionados, deixo aqui a parte final do artigo.

«Será que o Papa só inspira cardeais? Se assim é, pergunto-me se vale a pena estar Deus a esforçar-se para influenciar pessoas que são o que há da mais alta espiritualidade. Se não, então até onde vai o desejo inspirador no Espírito Santo? Até José Mourinho? Até José Sócrates, que está manifestamente, e com todo o merecimento, em estado de graça? Até Ribeiro e Castro? Até Marques Mendes? Ou Scolari (bem pago para ser inspirado)? Ou até Nicole Kidman (mais inspiradora do que inspirada)? Há aqui um problema teológico que temos dificuldade em deslindar. Isso não impede que Marcelo continue a analisar friamente as coisas em termos de estratégia e cálculo político. Acredito na sua fé - como acredito em todos os que têm fé. Mas que é acreditar? Dificilmente se aceita que Isaltino Morais (criador do verbo "isaltinar") esteja inspirado para se candidatar a Oeiras? E Fátima Felgueiras inspirou-se em quem? Este Espírito Santo não tem mãos a medir. Nem homens. Nem políticos. Nem a política do Vaticano. Nem a de Durão Barroso.
P. S. - No momento em que escrevo, um voto: que o Espírito Santo inspire o Sporting.»



A propósito da decisão do tribunal de Ponta Delgada, corre, na comunidade Quid Juris, discussão profunda e acalorada.