April 24th, 2005

rosas

a intérprete

A primeira surpresa de The Interpreter surge ainda antes do genérico, quando, logo na cena inicial, reconheci a Monumental, a praça de touros convertida em campo de futebol, que, apesar de muito destruída e arruinada, subsiste junto à Mafalala, nos arredores de Maputo. O que não se vê no filme, é que mesmo ao lado da Monumental, está um moderníssimo centro comercial com hipermercado, o sul-africano Shoprite. Enfim, isto não tem qualquer interesse para a economia do filme, mas é impossível não sentirmos um sobressalto quando reconhecemos um lugar tão distante que já frequentámos na infância distante e que revisitámos há pouco tempo (e temos a foto para comprovar)!
O filme de Sidney Pollack apresenta-se como um thriller de fundo político, quando uma intérprete da Nações Unidas descobre, por mero acaso, que há planos para assassinar um líder africano durante uma reunião da Assembleia Geral da ONU. Mas tratando-se de Pollack, a dinâmica do filme ultrapassa em muito a mera lógica do género.
Em primeiro lugar, The Interpreter é um extraordinário exercício acerca da forma como lidamos com a perda e a dor, e de como isso, ao invés de ser um pretexto para o isolamento pode pelo contrário ser um factor de aproximação. Nesse sentido, este filme, como muitos outros filmes de Pollack, é um filme sobre um homem e uma mulher, e sobre os possíveis lugares (afectivos, sentimentais) onde um homem e uma mulher se podem encontrar. E Pollack é um verdadeiro mestre em criar personagens com perfil e profundidade, e de lhes dar um sopro de verosimilhança que torna a história interessante, ou seja, interessamo-nos por aquelas pessoas e pelo seu destino.
Outro dos aspectos particularmente interessantes do filme, pelo menos para mim, ou para quem tem uma história pessoal ligada às ex-colónias e ao processo de descolonização, tem a ver com o enquadramento político do filme: a história dos grandes líderes populares que se tornaram ditadores sanguinários e ávidos de poder é demasiado familiar, como é familiar a necessidade, mais do que a contingência, de ter de abandonar a própria terra, e esse abandono corresponder à perda total daquilo que era e definia e constituía a vida das pessoas.
Digno de nota é ainda o olhar esperançoso de Pollack na capacidade de a ONU, a estafada e tantas vezes desesperançada ONU, ainda se constituir como o mais significativo e válido fórum de encontro das nações, de facto a única instituição de vocação universalista que consegue, apesar de tudo, uma razoável eficácia. Dir-se-á que o poder da ONU é diminuto, e sempre subsidiário, face aos poderes das nações que a integram. Mas é o único que existe, e nessa medida a única esperança que temos num concerto das nações.
Finalmente um destaque para as interpretações. Se de Sean Penn já nada se espera que não seja a excelência e a subtileza do seu trabalho, esta foi, para mim, a mais interessante composição de Nicole Kidman nos anos mais recentes.