April 22nd, 2005

rosas

ballet gulbenkian

Ballet Gulbenkian, ontem, no Gil Vicente, com duas coreografias: O Canto do Cisne, da Clara Andermatt, e Organic Spirit Organic Beat Organic Cage, de Paulo Ribeiro, que é o director artístico da companhia. Já tinha saudades de ver um espectáculo de dança, depois de ter perdido, sem honra nem glória, a passagem da CNB por Coimbra há duas semanas.
Gostei muito de ambas as coreografias, apesar de serem muito diferentes. A de Clara Andermatt é, de certa forma, uma coreografia de fácil leitura, e, na minha opinião, a seu maior interesse reside no modo como a coreógrafa trabalha uma figura, a do cisne, que é um clássico da dança, aliás um ícone do ballet clássico. É uma dança muito morfológica, que nos deixa verdadeiramente fascinados com a capacidade transformadora e representativa do corpo humano. Além disso, Clara Andermatt consegue insuflar um sopro de dramatismo na sua obra, o que lhe dá um toque de tensão erótica que é muito bem conseguido. Na minha opinião, o único ponto fraco da peça é que por vezes não consegue resistir à tentação de ser figurativa, o que comporta sempre o risco de se tornar um pouco caricatural.
Quanto à coreografia de Paulo Ribeiro, ela tem, na minha opinião, o fascínio das obras falhadas. É uma peça muito ambiciosa e muito exigente, quer em termos de dança quer, e é isso que aqui mais me interessa, em termos de leitura. Exige, desde logo, uma enorme e constante atenção, porque há muitos bailarinos em cena (toda a companhia) e porque o trabalho coreográfico é particularmente exuberante. Há variações e mudanças de ritmo constantes, há cenas de conjunto a trabalhar em uníssono que evoluem rapidamente para uma dispersão, simultânea, de técnica e linguagens. Há sempre demasiada acção, sempre coisas a acontecer. A exigência vem, também da base musical, constituída por três obras de John Cage, que, para resultarem m pleno, exigem uma dança sempre muito marcada, em que a ordem e o caos se organizam e estruturam e eliminam, mutuamente. Não é um defeito dizer que a obra é falhada: é uma coreografia que aspira a qualquer coisa de transcendente, e é admirável ver a falibilidade humana a contrariar essa divina aspiração pela ordem (cosmológica, na medida em que o palco é o cosmos). Além disso, pareceu-me que o final da coreografia comprometeu decisivamente o seu sucesso: quer o quadro do louco, quer o quadro final da noiva são demasiado explícitos (atrevo-me a dizer que são mesmo lugares-comuns), e facilitam a solução de uma coreografia que até aí tinha investido no profundo e no misterioso que reside no interior de um corpo em movimento e na sua interacção, sempre perplexa e perplexizante, com os outros corpos.