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conto: janet e os velhos
rosas
innersmile
JANET E OS VELHOS

Janet acabou por nunca ir ao Museu Cavafys. Trouxe Alexandria tão intacta como a levara, há três meses, antes das ruas e do sorriso amarelo dos carros eléctricos. Trouxe-a como sempre a vira, como sempre a viu. Ao longe, de longe, uma neblina misteriosa espalhada junto ao mar, sempre à espera de um reencontro com a história. À espera, mais do que à procura, do cumprimento de um destino.

A rua onde o velho morava permanecia tão misteriosa e familiar como sempre tinha sido. Ainda agora, Janet era capaz de fechar os olhos e lembrar-se melhor da rua tal como a imaginara, do que como era realmente. A latejante incerteza dos rapazes e a promessa escura de uma galabia branca.

Na noite anterior ao seu regresso, Janet disse ao velho: «Afinal acabo por me ir embora sem nunca ter ido ao Museu Cavafys».
Respondeu o velho: «Minha querida, chamamos já um táxi e vamos lá. Tenho a certeza que consigo que alguém nos abra a porta».
«Você não percebe», retorquiu Janet. «Não é assim que o Museu deve ser visitado. Tinha de ser eu a descobri-lo».
«Minha querida, eu já lhe disse que não percebo esse seu amor por Cavafys. Mas oportunidades não faltaram de o encontrar aqui em Alexandria, ele anda por aí. Qualquer um dos seus amigos universitários teria todo o prazer em a levar até ele. Eu, confesso-lhe, não o percebo e por isso dificilmente a poderia ajudar nessa sua busca».
Janet ficou a olhar o velho durante muito tempo. E a pensar numa certa tentativa de ir ao Cairo, que se esgotou numa das ‘rest houses’ da desolada auto-estrada.
«Foram os meus amigos universitários que me salvaram do marasmo infernal nesses três meses de Alexandria. Como você bem o sabe. Além de que foi você que mos apresentou todos, eram todos seus alunos».
«Sim, e belos rapazes, sem dúvida. Eu tinha a certeza de que você, minha querida, se ia dar muito bem com eles. Os rapazes aqui têm uma doçura que reservam apenas para quem se fascina por eles. Para todos nós, les outres, só têm rudeza e indiferença».
«Sim, e eu tenho-lhe a agradecer, não só ter-me trazido consigo para passar estes três meses, mas ter feito tudo para que a minha estadia não fosse tão aborrecida como poderia parecer inicialmente. Não pense que me esqueço disso, nem que desconheço o valor da gratidão».
«Minha querida, não há lugar para palavras de circunstância nem para protestos de melodrama. Você veio porque quis, ainda que pense que veio porque eu a trouxe. Veio à procura dos seus heróis, os heróis desses romances profundos que leu nos primeiros anos de faculdade. Veio à procura desse seu poeta. Lembre-se, eu disse-lhe uma vez, era de manhã e estávamos ainda deitados, havia apenas uma luz ténue a dar um tom cinzento claro ao quarto, lembra-se?, eu disse-lhe que é sempre um risco muito grande tentar procurar os poetas, os escritores enfim, nas cidades que foram suas. Servem só para acumular a caca dos pombos. Banalizam-se, com essa mania de os pôr, feitos estátuas, com um ar casual num recanto pitoresco da cidade. Eu disse-lhe isso tudo, minha querida. Avisei-a. Por isso, tenho a impressão, é que acabou por não ir ao Museu».
«Foi esse cinismo que o secou, ou pelo contrário, tornou-se cínico porque ficou seco?»
«Não me tente agredir, minha querida. Não vale a pena. Não nesta derradeira noite. Eu não a estava a tentar magoar. Palavra de honra».
«Nem eu a si. Mas odeio quando você fica assim seco e cortante. Os meus amigos universitários, como lhes chama, são quentes e suaves, têm corpos macios como as dunas, e os seus lábios são doces e carnudos como as laranjas. E é isso que você perdeu, ou, sei lá, nunca teve. Não pense que o detesto. Não. Tenho-lhe ainda mais amor do que quando me trouxe há três meses. Mas não suporto essa sua agrura. Falta-lhe a ternura dos namorados que se beijam encostados ao muro da Cornicha. Você veio com uma missão a Alexandria e cumpriu-a, sem nunca olhar para o lado, e sem se deixar contaminar pelo vento morno do deserto. E, não sei se voluntária ou involuntariamente, tentou-me conquistar para essa sua trincheira de secura. Ora, os dados já vinham lançados quando cá chegámos, por isso não percebo de que se queixa».
«Mas, minha querida, eu não me queixo, deixo as queixas todas para si».
«Vê como o cinismo se aninha nas suas palavras? Percebe? Não duvide, eu vim por duas razões: porque estava apaixonada por si, e porque estava apaixonada por Cavafys. ‘Janet e Os Velhos’, podia ser o nome da peça. Só por isso é que lamento não ter ido ao Museu, mais nada. Não era uma queixa, não era uma acusação, nem sequer era um lamento».

Os pares de namorados namoravam encostados ao muro da Cornicha, e os rapazes passeavam pelo passeio junto à Biblioteca de braço dado. Nesse final de tarde em particular, o mar estava agitado, e as ondas batiam com força contra o muro, derramando-se depois pelo passeio em nuvens de espuma fria. Janet olhou uma última vez para trás. A cidade estava intacta, como se nunca ali tivesse estado, como se não tivesse passeado pelas ruas, admirado a arquitectura dos edifícios, chocado os homens ao sentar-se na esplanada dos cafés a beber chá e a fumar shisha. Também intacto, apesar de resolvido, permanecia o mistério que trouxera Janet a Alexandria.
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