April 19th, 2005

rosas

as mãos dos pretos

Uma das coisas que me dá um gozo muito particular, é que grande parte das visitas, a maior parte mesmo, ao blog À Sombra dos Palmares, chega lá através de pesquisas nos motores de busca da net. E isso dá-me muito prazer porque sinto que, desse modo, o blog torna-se assim uma espécie de caixa de tesouros, uma moringa de água fresca onde se podem dessendentar todos os sequiosos da poesia de Moçambique.
De modo que de vez em quando, até para exercício de vaidade pessoal, lá vou eu ao contador de visitas conferir os endereços que referenciaram visitantes para o blog. Ontem um dos visitantes do À Sombra dos Palmares chegou lá porque pesquisou no Google "porque as mãos dos pretos são brancas", e o primeiro resultado que o Google deu foi a entrada no blog com o conto do Luís Bernardo Honwana, As Mãos dos Pretos, um dos contos mais bonitos e comoventes dessa pequena obra-prima quase esquecida da literatura em língua portuguesa que é 'Nós Matámos o Cão Tinhoso' (está editado aí, creio que pela Afrontamento, aparece muito naqueles restos das feiras do livro, basta pegar). Foi um dos primeiros textos que eu transcrevi para o À Sombra dos Palmares, em Setembro de 2003 e tem o número vinte e três (neste momento faltam poucos para o cento e cinquenta).
Até me deu vontade de chorar! Fiquei comovidíssimo. Como é óbvio, desconheço em absoluto as razões que levaram alguém a pesquisar a net com tal questão. Mas comove-me que a resposta que a net lhe devolveu seja esse conto admirável que, com uma simplicidade desarmante, humilde e ternurenta, expõe a irracionalidade do racismo. E enche-me o peito de orgulho, que querem?, que tenha sido eu, com estas mãos por acaso brancas, a lá pôr a resposta, a única resposta possível, a resposta do Luís Bernardo Honwana.
rosas

habemus papam

Francamente, não me perturba o passado de Ratzinger nas fileiras da juventude hitleriana. Teria que idade: dez anos, por aí? Ora, todos nós sabemos que a infância é, a maior parte das vezes, não o lugar feliz que passamos a nossa vida adulta a mitificar, mas um lugar de embaraços e sofrimentos que tentamos esquecer ou, pelo menos disfarçar.
Também não me perturba muito que o Ratzinger tenha posições pouco condescendentes relativamente à homossexualidade. Não espero da igreja, de nenhuma e por isso também não da católica, que faça seja o que for em prol do reconhecimento da integral cidadania, sem preconceitos e descriminações, nem atropelos à dignidade, dos homossexuais. Neste âmbito, a única coisa que me preocupa é a situação daqueles homossexuais católicos que têm de viver com o drama de sentirem natural neles uma coisa que para a igreja de que são devotos é pecaminosa. Acho que já há complexos de culpa suficientes aos ombros dos homossexuais para terem de carregar mais com esse.
Não me perturba nadíssima o facto de Ratzinger ser, de acordo com algumas opiniões, ortodoxo e conservador. A igreja católica para mim é um lugar de conservadorismo e ortodoxia, e até de obscurantismo e ignorância. Respeito muito os religiosos, os padres e as freiras, que optam por viver e servir os pobres e os humilhados e os explorados e os miseráveis e os excluídos do mundo; respeito muito esses homens e mulheres que estão onde mais ninguém está disposto a estar, e que ajudam quem mais ninguém está disposta a ajudar. E reconheço o papel que a fé, e por extensão a religião que professam, desempenha nessa sua opção.
Para falar com franqueza, a única coisa que me perturba, neste momento, um pouco na escolha pelo conclave dos cardeais de Joseph Ratzinger como Bispo de Roma, é o facto de parecer uma escolha anunciada. Agradar-me-ia muito mais, incomparavelmente mais, a ideia de que o papado não é um sacerdócio que se deseje, mas uma coisa para a qual se é escolhido, por vontade dos pares ou de deus através deles, independentemente, ou mesmo contra, a vontade individual. Ora, Ratzinger era apontado por todos como favorito, como se fosse um candidato a qualquer cargo mais secular, dizia-se que já contava à partida com o voto de 50 cardeais, que o seu comportamento nomeadamente a sua última homília antes do conclave, era muito programática. Que, inclusivamente, haveria grupos de apoio à sua escolha, nomeadamente através de sites da net que vendiam canecas e porta-chaves! Tudo isto torna demasiado óbvias, ou pelo menos nítidas, todas as estratégias de teor mais político que teológico que rodearam a escolha do Papa. Ou seja, olha-se para Bento XVI e, ao invés de um homem vergado pelo peso da impossível responsabilidade, vê-se antes o mal disfarçado sorriso de um vencedor. E isso, como digo, é mesmo a única coisa que eu acho um pouco perturbante na escolha deste Papa.