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king cole
rosas
innersmile
Passei a minha infância, dos sete até aos doze anos, entre duas casas, a nossa, dos meus pais, e a dos meus tios, que era próxima, e onde viviam os meus primos que foram os meus verdadeiros irmãos de infância. O meu tio tinha dois discos do Nat King Cole, Cole Español e More Cole Español. Ouvi esses dois discos mais vezes do que as que sou capaz de enumerar. Os meus tios eram die hard fans do Nat Cole. Depois, à medida que fui crescendo, sempre ouvi a música de Nat Cole, que era, e ainda é, um das referências musicais dos meus pais e da sua geração. Nunca tive aquela noção de ‘descobrir’ algumas das mais memoráveis canções dele, como Mona Lisa, por causa do filme do Neil Jordan, porque sempre as conheci. Para mim, todas as interpretações de The Street Where You Live, do musical My Fair Lady, se medem com a primeira, e por enquanto a melhor, que eu conheci, a de Nat King Cole.
Finalmente, quase quarenta anos depois do Cole Español na sala dos meus tios, em Nampula, comprei o meu primeiro disco de Nat King Cole (já tinha comprado umas colectâneas, mas para o meu pai), a antologia The World of NKC, que saiu recentemente, para marcar os quarenta anos do seu desaparecimento. Uma edição especial do cd, que tem um dvd com um documentário excelente e carradas de extras.
O mínimo que se pode dizer de Nat Cole é que é único, daqueles tipos que têm uma voz ‘inconfundabilíssima’, passe o neologismo. Poucas outras vozes têm essa capacidade natural de se distinguirem tão claramente. Mas Cole tinha mais: tinha uma dicção perfeita, percebem-se todas e cada uma das palavras que ele canta. Tinha um fraseado natural, em que cantar parecia ser uma extensão natural do acto de falar, ou seja de comunicar, de dizer coisas para serem ouvidas pelo outro. E depois tinha aquela mais valia de ser também um excelente pianista, o que dava à sua performance vocal toda uma riqueza e exuberância. Mas era um músico de jazz, mesmo quando enveredou pela via das baladas mais populares e, de algum modo, fáceis. E essa formação jazzistica era muito evidente na sua forma de cantar, na forma como atacava as canções, no tipo de arranjos que escolhia. E, claro, para além disso tudo, era um tipo cheio de charme, muito natural, simpático e elegante.
Só um tipo com muito carisma e muita personalidade conseguiria ganhar a imortalidade, para mais nesse terreno por excelência do efémero que é a música popular, num período de tempo tão curto: Nat Cole morreu aos quarenta e cinco anos (caraças, quase a minha idade), e já há quarenta anos, apesar de, durante este tempo todo, parecer que esteve sempre connosco.

Uma das canções que Nat King Cole popularizou, que, na verdade, tornou num clássico, foi Nature Boy, de Eden Ahbez. Recentemente, Caetano Veloso incluiu-a em The Foreign Sound, e já tinha aparecido, cantada pelo Ewan McGregor, no Moulin Rouge. A canção é fabulosa, na sua mensagem simultaneamente íntima e universal, que pode falar de um caso sentimental ou daquilo que é mais profundamente humano.

There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he

And then one day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest thing you’ll ever learn
Is just to love and be loved in return"
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dias no egipto viii (fim)
rosas
innersmile
2 de Abril

«Alexandria parece uma cidade europeia. Aliás, parece uma cidade colonial que parece uma cidade europeia. É curioso que as três cidades que visitámos são tão diferentes: Alexandria é uma cidade europeia, o Cairo é uma cidade árabe e Assuão uma cidade africana.»

«A Biblioteca de Alexandria, que foi emocionante visitar. Primeiro porque é um edifício lindíssimo, quer exterior quer interiormente. Depois porque tem um valor simbólico muito forte, que nos deixa ‘comovidos e mudos’, ao estabelecer um laço de ligação, uma continuidade entre a modernidade e a antiguidade. Como se fosse a mesma biblioteca, depois de mil e seiscentos anos de interrupção.»

«Só tive pena de não visitar nada relacionado com o Cavafys, que é a minha grande referência, até mais do que Alexandre O Grande, da cidade. Gostava muito de ter visitado a casa-museu do poeta. Mas mesmo assim passei o tempo todo à sua procura, a procurar vê-lo nas casas, nas ruas, nos passeios, nas arquitecturas, nos rapazes belos da Universidade de Alexandria que se passeiam, dois a dois, pelas ruas de braço dado.»

«Foram férias inesquecíveis, porque o Egipto é um país colossal. Enorme, marcado pela fertilidade extraordinária do vale e do delta do Nilo, que é um rio absoluto, berço de civilizações, dádiva da natureza, verdadeiro tesouro de um país de tesouros. Com uma riqueza patrimonial e arqueológica sem paralelo. Um país vibrante, cheio de gente, pulsante, em que a cultura árabe domina, mas que tenta, com sucesso, estar aberto à modernidade e ao mundo.
Para sempre ficam alguns momentos. A chegada ao Cairo, ver a cidade vasta e estendida e luminosa do alto do avião. O cruzeiro de barco pelo Nilo. O Nilo, que é um rio fascinante, pelo qual nos apaixonamos. As pirâmides de Guiza, solares e perfeitas. As horas nocturnas que passámos num hotel de baixa categoria em Assuão. A Biblioteca de Alexandria, a sua arquitectura e a história da sua refundação. O templo de Abu Simbel. E, claro, a grandeza de Luxor e Karnak. O colosso de Memphis. A necrópole de Sakara e a mastaba de Mereruka. O sol impiedoso do Vale dos Reis. Os templos de Kom Ombo, de Philae e de Horus, em Edfu. Os vendedores nos barcos a remos na eclusa de Esna. O Old Cataract Hotel, em Assuão.
Este mergulho integral numa das mais brilhantes civilizações de todos os tempos, e à qual não podemos ficar indiferentes depois de vermos, ao vivo e in loco, a riqueza e a beleza, a perfeição e a elegância, da sua arte e da sua cultura.»
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três dias de leitura
rosas
innersmile
Precisava de tirar três dias de férias, para pôr a leitura em dia. Estou a ler A Enfermeira da Bata Negra, do moçambicano Pedro Muiambo, um livro divertidíssimo que conta a história de Isayana Magaço e da sua mãe Maceda (de quem se diz que «ninguém ficava alheio à aura esplendorosa que dimanava daquela mulher. No seu confronto, ou se era do leste ou se era do ocidente. Não-alinhado era uma possibilidade inexistente.»). Um aspecto curioso neste livro, pelo menos na metade que já li, é a falta de referências directas ao passado colonial do país, tornando muito interessante essa visão do Moçambique novo, com as suas características próprias e os seus autónomos problemas. Aliás, o romance passa-se na década de oitenta, quando o pano de fundo dos acontecimentos é o socialismo popular (enfim, o comunismo, para os mais sensíveis como Jossefa). Mas para além da escrita desenvolta, da narrativa escorreita, desse olhar descomplexado para o passado do país, o que, para mim, se evidencia no livro é mesmo o olhar terno que lança aos seus personagens e o vivíssimo sentido de humor com que a história nos é revelada.

Ontem fui ao centro comercial para comprar uma prenda. Na livraria comprei mais dois exemplares dos Poemas do Índico, do Jall Sinth Hussein. Só à minha conta, a editora já vendeu um razoável número de exemplares. A senhora da livraria já me disse que vai encomendar mais exemplares, se eu quiser passar por lá daqui a uns dias... Bem, a verdade é que acho o livro fabuloso, é seguramente um dos livros da minha vida, uma poesia que me serve inteira e por dentro. Claro que um dos exemplares é para oferecer hoje à aniversariante, e o outro também já tem destinatário. Ou seja, lá em casa vou continuar a ter só um livro!

Cumprida uma compulsão, salta logo outra: o livro Memórias de Um Craque, do Fernando Assis Pacheco reúne trinta crónicas que ele escreveu para o Record, em 1972, dedicadas a um craque maior do futebol português: o próprio FAP, quando, nos anos 40, dominava o panorama futebolístico da rua dele. Há um aspecto particularmente interessante do livro, que é ser uma crónica de uma certa Coimbra médio-burguesa. Mas o melhor é mesmo a escrita do FAP, em momento de altíssima forma. A sério, brilhante, uma coisa tão bem escrita, tão saborosa, com um sentido de humor tão exuberante, mas assim mesmo dentro da área do ‘genial’, daquelas que um tipo lê e relê uma frase meia dúzia de vezes para lhe apreender toda a riqueza, todo aquele trabalhar da língua que parece fácil e simples e espontâneo. Tenho a certeza de que será um dos melhores livros publicados este ano em Portugal, e se a minha opinião vale alguma coisa, leiam-no, depressa. Palavra, façam-me esse favor e leiam-no. O Assis foi um dos maiores escritores portugueses do século, e o tempo tem-se encarregue de o mostrar, demonstrar e provar.
O livro, nas últimas páginas traz ainda o plano de edição as obras do FAP. Claro que já tenho todas as que já foram anteriormente publicada noutras editoras (menos o Walt, que já tive, primeiríssima edição, e que alguém ficou com ele), mas anunciam-se mais inéditos (como estas ‘Memórias...’) que fazem crescer água na boca a qualquer ‘assisólogo’ (uma delas é o ‘Bookcionário’, que eu suponho seja uma colecção das suas crónicas sobre livros, e de que eu já falei uma vez aqui no innersmile).

Entretanto, e já que estava com a mão na massa, comprei Longe de Manaus, que eu presumo seja o último livro do Francisco José Viegas. Confesso que o anterior livro dele, Lourenço Marques, me maçou um bocadinho, achei-o pouco consistente, e, apesar da excelência da escrita, a obra final ressentia-se um pouco dessa falta de massa. Como se o autor tivesse um ambiente que queria explorar, mas a que faltava a argamassa de uma boa história para contar. Mas, mesmo assim, continuo a ser um indefectível fã do FJV, principalmente da ficção, e para mais neste Longe de Manaus volta a estar em cena o inspector Jaime Ramos, que é, julgo eu, o melhor e mais verosímil dos detectives portugueses.

Como se vê, estou mesmo a precisar de três dias de férias.
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