April 11th, 2005

rosas

o café pinguin

Uma entrada do amigo farrolas pôs-me na senda da Pinguin Cafe Orchestra. Não me lembro se já sabia e me tinha esquecido ou se nunca cheguei a saber que o Simon Jeffes tinha morrido, e já há alguns anos.
A PCO é um dos meus grupos míticos. Quem é do tempo em que não havia net e o mundo era um lugar bastante mais vasto e misterioso do que é hoje, lembra-se que, antigamente, não havia a facilidade que há hoje em conhecer o que se vai fazendo, em termos culturais, pelo mundo. A rádio e umas raras revistas de duração sempre efémera e saída mais do que incerta eram as únicas fontes de informação. Muitas vezes, tudo o que conhecíamos era um nome, sabíamos vagamente que num recanto qualquer do mundo, que até podia ser tão longínquo como Badajoz, havia um tipo a escrever ou a fazer música, mas as dificuldades e a própria escassez de informação impediam-nos de, por muito tempo, conhecer efectivamente os seus trabalhos.
Foi isso que me aconteceu com a PCO. Devo ter pela primeira vez ouvido falar neles por finais dos anos setenta, quando me emancipei dos gostos musicais do meu irmão e arranjei um grupo de amigos que me ajudou a definir gostos e preferências. Durante algum tempo (anos?) julgava que a PCO seria assim uma espécie de orquestra proto-punk! Ao longo do processo, lá devo ter descoberto que, afinal, não era bem assim.
Seja como for, e apesar de ter uma ideia menos vaga de como seria a sua música, a verdade é que o meu conhecimento concreto do trabalho daquele que já era, a julgar apenas pelo que eu lia deles, um dos meus grupos musicais preferidos (!), foi praticamente nulo até ao dia em que eles aterraram em Coimbra. Ainda hoje me acontece isso, embora já mais raramente: apaixonar-me por um disco, por um livro, mais frequentemente por um filme, apenas pelo que vou lendo sobre, muito antes de efectivamente chegar a meter o dente e a provar o sabor. Enfim...
Então, um dia, que não consigo agora precisar (preguiça para ir pesquisar nos meus arquivos – eufemismo pomposo para o lixo que vou acumulando) mas que terá sido entre 1988 e 1992, a PCO desembarcou em Coimbra, no palco, claro, do Gil Vicente. Lembro-me de, na altura, ter arrastado para o concerto um casal de amigos que achavam estranhíssima a circunstância de eu os tentar convencer a todo o custo ir a um concerto e quando me perguntavam que tipo de música era, eu responder com um muito vago e embaraçado «não sei muito bem...». Bom, ficaram, tal como eu, deslumbrados. Foi uma emoção. Não só estava a assistir ao concerto de um dos meus grupos míticos, como estava, finalmente!, a conhecer o tipo de música que faziam, e, sobretudo, a deslumbrar-me com essa música. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida.
A música do PCO era tal e qual como eu tinha imaginado, uma espécie de música tradicional de um país inventado, um pouco como a música que, na minha mente, deveria tocar aquele grupo do bar do filme Star Wars, em que é um tipo de cada planeta. Uma música humorada, leve, hipnótica, muito imaginativa, melodiosa, bem assente nos seus três pés: a música tradicional - aquilo que hoje se chama a música do mundo, a música dita clássica – na estrutura das composições, na escolha da instrumentagem, e a música pop – no formato das canções, e na sua capacidade de se colar ao ouvido.
Logo a seguir ao concerto, comprei, numa discoteca um pouco ‘alternativa’ (na altura nem se chamava assim, o termo foi inventado posteriormente) que existiu em Coimbra, creio que era Fuga, ou Fugas, ali num dos centros comerciais da C. Gulbenkian, o ‘When in Rome’, que era um disco gravado ao vivo, e que tinha mais ou menos o alinhamento do concerto a que eu assistira. Ouvi tanto esse cd, com um fascínio e uma atenção tão grandes, que decorei cada faixa, cada orquestração, cada subtileza instrumental.
Em 1998, em Dingle, na República da Irlanda, entrei num bar para beber uma cerveja depois de um jantar de ostras num dos restaurantes locais. Como sempre nos bares irlandeses, para mais da província, a música ia-se fazendo ao som dos acompanhantes, de quem se ia sentando no sofá para tocar um bocadinho, ou se levantava para ir ao balcão beber mais uma Guiness. De súbito, começo a ouvir qualquer coisa de familiar, que apesar do arranjo mais simplificado de guitarra, banjo e bodhran, consegui logo identificar. Foi outro momento emocionante, e inesquecível, ouvir a música da PCO ali, num bar anónimo de uma rua qualquer de Dingle, Co. Kerry.