April 7th, 2005

rosas

dias no egipto vi

31 de Março

«Um dos prazeres inesquecíveis destes dias a bordo do MS Caprice tem sido, durante a navegação e naquelas horas de maior calor em que a grande maioria dos passageiros vai lá para cima apanhar sol, ir para o salão, recostar-me num dos imensos sofás verdes, livro na mão (Death On The Nile, da Aghata Christie, pois claro), a beber um chá de menta. Mas o melhor de tudo é mesmo levantar os olhos do livro e ver a paisagem verde e castanha, o contraste do fértil vale e do seco deserto, a desfilar pelas janelas grandes e rasgadas. A vegetação, as árvores, as tamareiras, as casas, os minaretes, recortam-se quase em silhueta contrastada, e formam um skyline que vai passando pelas janelas à velocidade pachorrenta do navio, como um filme que fosse deslizando em câmara lenta.
Acho que esse prazer vai ser das coisas inesquecíveis desta viagem, essa possibilidade tão rara de estarmos parados a ver o mundo passar, a desfrutar essa oferta que é a beleza do mundo a desfilar perante os nossos olhos.
Hoje de manhã, quase deitado no sofá a ver esse meu filme privativo, quase me doeu a melancólica certeza de que nunca mais experimentarei esse prazer, ou pelo menos de nunca mais tornar a sentir o prazer da sua descoberta. É aquela minha pequena e mansa angústia de chegar a sentir saudades de todo esse tempo em que na minha vida vivia a promessa insuspeita de uma felicidade à espera de ser cumprida.»

«Finalmente em Assuão. À tarde fomos visitar a grande barragem e o templo de Philae, que fica numa pequena ilha, no lago Nasser, um lago artificial formado pela bacia imensa (500 quilómetros de comprimento) da barragem. Claro que a minha piada da tarde foi a emoção de conhecer finalmente o lugar de onde vêm as famosas colecções philae, com os seus dedais de porcelana pintados à mão e as medalhas comemorativas. Mais ninguém achou graça!
O templo foi deslocado pedra a pedra umas dezenas de metros da original ilha de Philae para uma ilha mais alta, aquando do enchimento da barragem. Para além do templo a Ísis, na ilhota existe um conjunto monumental sobretudo da época romana. O meu preferido foi o Quiosque (ou câmara) de Trajano, que tinha sido projectado por Adriano em homenagem ao seu ‘amigo’ (foi a expressão usada pelo Emad) Antínoo.»

«Pela primeira vez, esta noite, está uma verdadeira noite africana, quente. Tenho escrito pouco sobre África. Para mim, África é a África Negra, essa começa aqui, no sul do Egipto.
Na verdade, quando se chega ao Egipto, quando se chega ao Cairo, o que nos entra pelos olhos (e pelas narinas, e pelos ouvidos), é a presença muçulmana, é o islamismo, essa condição árabe que une o mundo do lado sul do Mar Mediterrâneo. Mas depois, aos poucos, África vai-se intrometendo, vai ocupando as frinchas. Quando se chega aqui a Assuão, quando se passa o portaló e se sobem os degraus até à Corniche, quando se chega ao passeio da avenida e se depara com a imensa confusão, com o tumulto instalado, com a fúria dos sons, com a profusão de pessoas, com o movimento, é África que nos vem à ideia. Mesmo que as mulheres andem cobertas da cabeça aos pés, mesmo que os homens usem galabia, mesmo que se ouça chamar para a oração na mesquita, aquele caos é africano, aquela vastidão é africana. As cidades africanas são assim, estendidas.
Hoje, pela primeira vez, aqui em Assuão, parado num passeio sob um sol abrasador, as árvores a juncar as avenidas, as carrinhas a parar brevemente para largar e meter sobrelotados passageiros, as vozes, as buzinas, as cores, senti-me em África. Em casa.»