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dias no egipto v
rosas
innersmile
30 de Março

«’Desses dias de Swakopmund lembro-me sobretudo de duas mulheres, velhas namibianas alemãs, de vestidos rodados e coloridos, com sombrinhas abertas embora não chovesse, para prevenir do sol que filtrava da bruma, passeando na praia. Os vestidos faziam rasto, como se elas quisessem deixar marca. E deixavam, efémero. Sempre me comovi com mundos que acabam, quando já não os julgo e só sei que os perco’.
Foi o Ferreira Fernandes que escreveu este trecho belíssimo, na crónica de um número da Sábado, que o P. tinha aí e que eu li por acaso. Sempre encontramos por acaso estas coisas que se nos revelam, e que nos revelam, com inteira claridade. Percebi, ao ler esta frase, quer dizer a frase final, porque é que me comoveu tanto a ida a Moçambique, há dois anos: é que, nesse caso, esse mundo perdido era o da minha infância, tinha sido o meu. E a mim, já livre desse tempo de o julgar, só me interessava saber que o tinha perdido.»

«Estamos desde ontem em Esna, à espera de vaga para passar a eclusa.
Quando vim ao quarto depois do pequeno-almoço, tinha no canto da cama voltado para a porta, um cobertor montado em forma de cisne. Comovi-me. Não com o cisne, mas com as mãos que o armaram.»

«Ontem pedi ao Emad referências de escritores egípcios. Deu-me apenas duas: o de Naguib Mahfoud, que nunca li mas está traduzido e editado em Portugal, e o de Tawfic Al Haquim, escritor de teatro e de quem nunca tinha ouvido falar. Quando lhe perguntei pelo Cavafys, respondeu que ele não era egípcio, que era um grego que vivia em Alexandria. Pobre Cavafys, se calhar ainda não é aqui que te encontro.
Talvez seja verdade, talvez Cavafys fosse mesmo um grego que vivia em Alexandria. Mas eram egípcios de Alexandria os rapazes cujos rostos e corpos Cavafys amava em segredo, com os quais provavelmente aprendeu a nomear essa dor do tempo que passa, e sobre quem escreveu alguns dos mais belos poemas de sempre.»

«O pôr-do-sol é, como sempre em África, súbito e rápido. Hoje vi, do deck superior do barco, deitado numa espreguiçadeira, o pôr-do-sol e a chegada da noite. Aos poucos, à medida que a abóbada ia escurecendo, foram aparecendo as estrelas, as constelações. O M., um dos companheiros de viagem, ia identificando as principais e mais visíveis. Retirei-me quando se começou a discutir a possível existência de vida extraterrestre. A minha ‘posição oficial’ acerca do assunto (e que fui roubar já não sei onde) é que se houver vida verdadeiramente inteligente noutros planetas, esses seres extraterrestres superiores, capazes de vajar pelo espaço à velocidade do pensamento, não vão querer ter contacto nenhum connosco.»
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wojtyla
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innersmile
O facto de estar de férias longe da televisão poupou-me àquilo que, aparentemente foi mais um estardalhaço mediático, desta vez a propósito da morte eminente do Papa João Paulo II. Soube da morte do Papa lá longe, sentado num restaurante, de frente para as Pirâmides de Guiza, porque uma das colegas de passeio recebeu uma SMS com a notícia.
Tive assim a oportunidade rara de reagir a uma notícia sem qualquer tipo de poluição informativa. E tenho de confessar que a minha reacção imediata, perante uma morte que era mais do que esperada, foi de tristeza. Não propriamente de desgosto, claro, mas, apesar de tudo, de tristeza.
E digo apesar de tudo, porque sempre fui muito critico deste Papa, e sempre cada vez mais nos últimos anos. Acho que este Papa corporizou algumas das maiores contradições da Igreja Católica, e choca-me que de algumas dessas contradições resulte essencialmente sofrimento humano. Não a mim, pessoalmente, que não sou crente, e muito menos fiel, e por isso os ditames e os juízos da Igreja Católica não me molestam . Mas a todas aquelas pessoas que acreditam, e que têm de viver o drama íntimo de terem comportamentos ou características que a Igreja Católica não aprova, ou, pior, condena.
Mas, como disse, não pude deixar de sentir tristeza com a morte do Papa. Primeiro, porque este é, ou foi, o Papa da minha vida. Ou seja, foi durante o longo pontificado de João Paulo II que eu vivi a minha idade adulta, e, portanto, foi ele a face da Igreja Católica, e o meu interlocutor, durante a minha atribulada relação com ela.
Depois, é verdade que houve algumas vezes que me entusiasmei com acções do Papa. Por exemplo, com o papel que ele teve na luta dos sindicatos polacos, através do apoio da igreja católica polaca, e que foi o primeiro passo na implosão do chamado bloco de leste. Também sempre fui muito sensível à peregrinação do Papa, que percebeu que tinha de ser ele a correr o mundo, a ir ter com as pessoas, sobretudo com os pobres e os explorados, para lhes dar uma mensagem de esperança. Acho, por exemplo, espantoso que um homem como Fidel Castro tenha, e demonstre como foi agora o caso, um enorme respeito por João Paulo II.
Quando o Papa veio a Coimbra, em Maio (creio que a 15) de 1982, fui ao estádio municipal vê-lo e acolhê-lo. O estádio, tal como era, já não existe, foi desmantelado. O Papa morreu. Se calhar é por isso que estou triste.