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dias no egipto ii
rosas
innersmile
27 de Março

«O momento mais especial do dia, para mim, foi a visita à Cidadela do Saladino, mandada construir para defesa da cidade no tempo das cruzadas, e a mesquita de Mohamad Ali, a mesquita de alabastro. Senti o fascínio do Corão, de uma religião que tem um deus poderosíssimo. Não aquele deus a que estamos habituados, que faz compromissos, que negoceia. Mas um deus perante o qual todos se ajoelham e submetem por igual, ricos e pobres, explorados e poderosos, reis e servos.»

«Bebi chá feito com folhas de menta.»

«Da mesa do jantar, avistavam-se as pirâmides (que visitámos ontem), as maiores, de Keops e Kefren. Imponentes e majestosas. Enigmáticas e sublimes. Fascinante a arquitectura das pirâmides, o modo como elas ocupam o espaço à sua volta e o dominam. Impressionante. São de tal forma fortes que marcam o olhar. Tudo em volta, toda a paisagem, todo o vale do Nilo, a estrada por onde circula o autocarro e os seus alheados e sonolentos passageiros, tudo se organiza em função das pirâmides. São perfeitas, e, claro, ninguém sai ileso dessa possibilidade mais divina que humana de contemplar a perfeição.»

«Durante a visita da tarde, o guia mencionou que a cidadela de Saladino foi construída no plano da defesa contra as cruzadas. De repente, um tipo toma consciência de que, aos olhos dos muçulmanos, nós, os europeus, somos os maus da fita. Não é só termos sido inimigos, mais do que adversários. Mas que, no plano da história, e da sua perspectiva, fomos mesmo os maus da fita.»

«Falta descobrir, nesta viagem, o sentimento de que, por detrás e por baixo das diferenças, por mais radicais que elas aparentem ser, somos na verdade todos iguais. Neste momento, o que ainda me fascina nestas pessoas que vejo, ou com quem troco breves palavras de circunstância, é serem diferentes de mim. Falta ainda descobrir o verdadeiro fascínio de que, na realidade, elas são apenas uma maneira diferente de serem iguais. É essa a descoberta pessoal, íntima, que ainda me falta fazer.»
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dias no egipto iii
rosas
innersmile
28 de Março

«Passei o dia cansadíssimo, a adormecer constantemente e em toda a parte. Claro, nas ligações por autocarro, mas literalmente em toda a parte: sentado na base de uma coluna imensa no templo de Karnak, num banco corrido da cafetaria a dormir entre dois golos de sprite, de pé encostado a um muro do templo a ouvir a explicação porque é que um dos obeliscos de Karnak foi emparedado.»
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dias no egipto iv
rosas
innersmile
29 de Março

«São onze horas. Em Luxor, a bordo do MS Caprice, à espera que ele comece a navegar no Nilo, para sul, subindo o rio até Assuão. Da janela aberta da cabine, o lençol de água e a margem intensamente verde do Vale do Nilo, e, lá atrás, o deserto.»

«Já saí, fiz umas compras. Fica-se sempre com a sensação de que se foi enganado, de que os preços da negociação são sempre aleatórios, de que se pagou demais, de que se a negociação tivesse sido melhor conduzida se tinha pago menos. O preço final depende de muita coisa, depende de tudo, até da hora do dia: é mais caro de manhã (a importância do primeiro negócio do dia) do que de tarde.
Mas quando pagamos, estamos também a pagar pela simpatia, que pode ser irónica, mas nunca é cínica ou sarcástica, de quem vende. E, num caso ou noutro, essa simpatia pode mesmo ser gentil e amigável. Gosto muito de uma maneira de ser muito táctil, dos gestos, das pessoas não terem medo de se tocarem, de serem afáveis umas com as outras, e não meramente cordiais.»

«Há duas coisas que as palavras e a máquina fotográfica não conseguem registar: o cheiro do souq e o chamamento para a oração na mesquita.»

«Aqui no quarto, as cortinas abertas, o reflexo da luz na água vem espelhar-se como um filme só de luz que passa a correr no ecrã branco do tecto da cabine.»

«Nesta terra de deuses e faraós, às vezes parece tão fácil receber a graça de um deus, o favor de um príncipe. É sempre deles o tombadilho. É sempre deles o passo formoso em direcção aos olhos. Mas é sempre meu o olhar que se perde para além do vale fértil, nas montanhas que prenunciam a secura do deserto.»
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