?

Log in

No account? Create an account

abraço
rosas
innersmile
A mesma mão, o mesmo abraço. O mesmo passo. O mesmo laço com que desfaço esta secura em que me asso. O mesmo traço, rasgado aço. Sobre o teu peito, dorme o meu braço.


A ler a revista 'relâmpago’, dedicada a Eugénio de Andrade. Por entre ensaios, testemunhos e documentos, uma certeza que se pressente: Eugénio está muito doente. Prepararmo-nos para, um dia com certeza não muito distante, ficarmos sem ele. Restarão os versos, é o que se diz a este propósito. Mas é pior do que isso. Quem amou os versos, quem respirou através deles, quem neles aprendeu as cores da vida, quem amou o amor que neles se enuncia, ama também o poeta, mesmo sem nunca o ter conhecido, sem nunca o ter visto sequer.

Do que falo? No livro está inscrita, pela minha mão, a data: Julho de 1987, apesar de o livro ser muito muito mais antigo, do tempo de uma noite ainda mais antiga e suja. Eu tinha vinte e cinco anos. Mas era de noite ainda, e ainda que, sobre a minha noite, sempre tivesse banhado uma lua cheia. E estes versos:

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.


Percebe-se agora?

Mas hoje este poema é todo para a Petra.
Tenho estado toda a tarde a ouvir ‘April’ de Old Jerusalém. E acho que percebo, quer dizer: intuo mais do que entendo, porque é que a Petra gosta tanto deste disco. Porque passa por estas canções qualquer coisa de essencial. Ou melhor, passa por elas a sugestão de uma qualquer coisa que é essencial. Como é próprio da melancolia, que é sempre um sentimento que não percebemos, mas que sabemos que mora ao centro.
Estas canções são finas como um fio. Como aquele invisível fio de seda que segura a teia. E a Petra, que de quem muitos julgarão que é transbordante como um copo cheio, sabe que é só a esse fio, fino, frágil, quase inexistente de tão invisível, que nos podemos agarrar. Raramente conseguimos divisar que fio é esse. Mas estas canções de Old Jerusalém, são especiais porque, ao ouvi-las, sentimos esse fio atravessar-nos.


É assim a vida. Sempre tudo. Sempre a ganharmos e a perdermos. Na mesma tarde. No mesmo passo.