March 23rd, 2005

rosas

estrelas

AO LUÍS MIGUEL NAVA, NOUTRA ESTRELA

Dizem que foste tu
a escolher a violência
da tua morte, num acorde perfeito
com os teus versos. Não é verdade:
tu sabias que nenhum inferno
é pessoal, por isso procuravas
um rio onde ardesses
para voltares a nascer longe da terra.
Apenas isso – o resto é merda.


Este poema de Eugénio de Andrade foi escrito por ocasião da morte brutal de Luís Miguel Nava, em 1995. Vem publicado no nº 15 da revista Relâmpago, editada pela Fundação LMN, que apresenta um dossier monográfico dedicado precisamente a EA. Juntamente com o poema, publicam-se fac-similes das primeiras versões manuscritas do poema.
Os nomes de EA e de LMN estão ligados, como também prova o recente volume dos ‘Ensaios Reunidos’, de Luís Miguel Nava, recentemente editado pela Assírio, e onde aparecem seis ensaios dedicados à poesia de Eugénio.
Há, de certa forma, uma gemeidade entre as duas poéticas, nomeadamente no registo lírico, mas como se cada uma delas fosse o espelho contrário da outra: onde a poesia de Eugénio é solar, luminosa, natural, a de Luís Miguel Nava é visceral, carregada, sombriamente humana. Mas ambas se radicam na experiência física, na experiência do corpo, como o lugar primordial de todo o poema.