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uma mulher na cidade
rosas
innersmile
Não é muito frequente, mas por vezes acontece lembrarmo-nos de uma coisa que escrevemos e acharmos que escrevemos uma frase, ou um verso, feliz. Constato agora que uma vez, já há uns tempos jeitosos, escrevi um desses versos felizes.
Eu tinha acabado de conhecer pessoalmente uma menina, e fiquei logo ali arrebatado, convencido que tinha conhecido uma pessoa que era uma verdadeira força da natureza (passe o lugar comum), uma pessoa extraordinária, em cujo peito sopra um fôlego que nos arrepia e aconchega. Mesmo o facto de ela dizer que gosta de bater em velhinhas só mostra que ela não tem medo da vida, nem das palavras que a gente usa para explicar a vida, e isso é qualquer coisa de fascinante para quem sempre se habituou mais a contemplar a vida mais do que a vivê-la, com medo de se chamuscar na labareda.
E então as palavras felizes? Como disse, poucos dias depois de a conhecer, em estado de absoluto fascínio, escrevi-lhe um soneto. Quer dizer, os sonetos não se escrevem, compõem-se (naquele sentido em que se diz que Mozart compôs mais uma sonata ou um concerto) ou cometem-se (no sentido em que se diz que alguém cometeu um crime); não é por falsa modéstia que eu, lucidamente, me incluo no rol dos criminosos. Cometi-lhe então um soneto, que terminava com estes dois versos:
«E a noite que por Lisboa sibila
traz-me quente a canção de Petronila.»
E foram dois versos felizes porque, por alguma daquelas intuições lá que a gente nem pressente, quanto mais entendê-las, aparecem ligados o nome da menina e o de uma cidade. E o que os tornou felizes foi agora, dois anos e pouco depois, a menina ter escrito um texto lindíssimo, pungente até à raiz do coração, um texto daqueles que parece que foi escrito no olhar maravilhado de um menino a contemplar a sua primeira árvore de Natal, precisamente sobre essa cidade.

A Petra escreveu um texto sobre Lisboa. E quase que chega a ser dor uma certa e estranha, digamos, impossibilidade, por não termos sido nós a ver o que ela viu.

«Vamos dar uma volta de mão dada, Lisboa está à porta de casa, ao lado das putas, por cima das calçadas, entre as vielas tortuosas de Alfama, dentro das escadas do prédio amarelo ali ao pé das tascas.
Vamos dar uma volta, aproveitar que está finalmente a chover e gozar da água pequena que nos cai nos cabelos, nos ombros, no graduado das lentes, que nos faz escorregar nos sapatos desatentos, no óleo que os eléctricos largam a caminho dos Prazeres.
Vamos dar uma volta, a vida não devia ser mais que um passeio ao final da tarde, enquanto as luzes não acendem e a Praça do Rossio fere os olhos preguiços em tons de lilás e branco-montra, fios de luz esquecidos do último natal ainda presos às paredes dos edifícios, os primeiros cheiros a caril do Nepalês atrás do Teatro Nacional.
Vamos dar voltas, uma só não chega, passeemos os discos antigos da loja na Rua das Pretas com o orgulho de quem traz escondido um tesouro na bolsa, como nós. Vamos dar voltas com os nossos segredos, sentemo-nos no Sul a beber caipirinhas até à hora do jantar cor de vinho do Dão.
Vamos dar uma volta, tu dás-me a mão e eu dou-te a mão também, o tempo urge e não tarda as luzes acesas trazem os ruídos e as músicas confusas ao Bairro Alto, não tarda já não podemos passar entre as multidões e os seus copos plásticos com cerveja e sangria duvidosa.
Vamos aproveitar nas nossas voltas esta Lisboa ao lusco-fusco, que ainda não se entregou aos outros, aos que chegam de noite e vão embora antes de nascer o sol, embriagados, tontos, barulhentos, que não sabem que existe uma cidade só nossa, viva, muito mais viva que qualquer um deles, imponente em tons de azul-Tejo, laranja-sol, rosa-vaso-à-janela, castanho-casa, vermelho-telha, arco-íris-Feira-da-Ladra.
Vamos dar voltas num abraço à cidade dos Sete Colos.

Amo Lisboa de paixão.»