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sideways
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innersmile
A primeira nota acerca de Sideways tem forçosamente de ir para o argumento (o filme ganhou o óscar para o melhor argumento adaptado), para a escrita dos diálogos. Só pelo prazer de assistir a uns diálogos tão bem escritos, tão inteligentes, ficamos com vontade de rever o filme no momento em que ele termina. São assim uma espécie de cruzamento entre o Before Sunset e o Seinfeld. Sim, garanto que não estou a exagerar. O filme utiliza completamente, mas sem nunca ser forçado ou chato, a temática da enologia para criar toda uma série de metáforas, de referências e contrapontos narrativos. Há uma cena na qual Miles e Maya conversam sobre vinhos numa varanda, à noite; é notável como cada um deles se revela totalmente ao outro através da descrição de determinado vinho ou determinada casta. E é tão perfeito que, claro, eles apaixonam-se nesse momento.
A segunda nota é para a fotografia, uma claridade solar, cor de palha, cor de seara madura, que faz lembrar o sul de França (mesmo para quem, como eu, nunca lá esteve). O vinho é o resultado de três coisas: a casta, o solo e o sol, e talvez por isso esta particular iluminação do filme, a criar aquele efeito um pouco difuso que tem a luz dos vinhedos ao sol. Não é a luz rigorosa e crua do meio-dia, é uma luz fresca, uma luz de natureza em transformação.
Depois, há uma narrativa leve, um trabalho de câmara quase invisível de tão simples, como se não houvesse nada entre nós, os espectadores, e os protagonistas do filme, como se o cinema não fosse um meio.
O quarteto dos actores é superlativo, mas o rei da festa tem de ser o Paul Giamatti. Raramente uma interpretação consegue atingir aquele ponto de perfeição, de subtileza e expressividade. Giamatti era já a alma do filme ‘American Splendor’ e mais uma vez ele transporta toda a carga emocional do filme, todo o seu sentido e significado.

O filme apanhou-me um bocado em contra-pé. Não ando a passar exactamente um momento de grande fulgor, e talvez por essa razão me tenha comovido tanto a personagem de Miles. Claro que a leitura mais imediata é a de que há um inevitável processo de identificação (minus o vinho, que eu bebo pouco e não percebo nada de enologia, a não ser adorar aquela linguagem própria dos enólogos, mas isso tem sobretudo a ver com o facto de me fascinarem as palavras e as linguagens), mas é um pouco mais profundo do que isso: os fantasmas dos outros são sempre um pouco o reflexo dos nossos próprios fantasmas.
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cidades felizes
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innersmile
No dia 28 de Março de 1984 houve uma greve dos transportes urbanos em Londres. Eu ia ser internado nesse dia para fazer o primeiro tratamento de quimioterapia, e o hospital ficava fora da cidade, em Sutton, no Surrey. Para chegar ao hospital eu e a minha mãe tínhamos de ir apanhar um comboio à estação de Victoria e estávamos na de Euston. Depois de uns breves momentos a analisar o caos reinante nas ruas em redor da estação, à hora de ponta da manhã, decidimos que a melhor alternativa era descer por dentro da estação para o terminal subterrâneo dos táxis.
Claro que a fila era enormíssima, mas os carros entravam a bom ritmo e ficámos mais descansados, o problema estava resolvido, era só uma questão de tempo, e tínhamos disponibilidade e horários de comboio para estar no hospital à hora mercada. Além disso, a boa disposição reinava na fila. Apesar dos contratempos, dos atrasos, das filas e das esperas, as pessoas literalmente gozavam a quebra da rotina e a excepcionalidade da situação.
Reparámos que quando chegava a vez de entrar para o carro, a maior parte dos passageiros voltava-se para trás, e gritava para a fila o local do destino, para ver se havia outras pessoas interessadas em partilhar a viagem. Nítidas vantagens, claro: despachava-se a fila, partilhavam-se os custos. Quando chegou a nossa vez, incentivado pela minha mãe, lá gritei ‘Victoria’, e adiantou-se logo um casal de meia-idade, todos sorridentes e simpáticos. A viagem, mais demorada do que o habitual por causa do trânsito saturado, foi animada. Nós lá explicámos ao que íamos, eles iam passar férias a França. Não me lembro dos pormenores da conversa, mas recordo-me de que falámos sobre o fools day, que é o dia das mentiras, o 1 de Abril, e eles contaram algumas das partidas que os jornais e a televisão faziam nesse dia, como uma reportagem com imagens sobre as árvores em Itália que davam o esparguete.
Quando chegámos a Victoria, e apesar de o táxi ser nosso, eles insistiram em pagar a viagem, e separámo-nos num clima de grande amizade, e até um certa emoção, da parte deles, por causa da minha doença e do tratamento que ia começar, e da nossa parte por sermos tão calorosamente tratados.

Lembrei-me desta história (uma de entre muitíssimas outras que a minha memória guarda de uma forma quase cristalina, desses meses difíceis mas inesquecivelmente intensos) a propósito de uma passagem do livro que estou a ler. ‘Londres e Companhia’ é uma espécie de memória, não exactamente uma autobiografia nem aquilo que se pode chamar um livro de memórias clássico, mas uma colecção de histórias e episódios escritos pelo poeta Luís Amorim de Sousa sobre os anos que viveu em Londres, para onde foi, oriundo de Moçambique e depois de uma paragem na então chamada Metrópole, no início dos anos 60. Eu já conhecia um livro de LAS, Ultramarino, que comprei por causa da ligação a Moçambique, e onde encontrei um poema delicioso sobre Juiz de Fora, e que já pus no innersmile. Pelas páginas desta memória, passam muitas figuras do meio artístico português, então jovens à procura de horizontes mais arejados e menos persecutórios do que os do Portugal de Salazar e da PIDE: João Cutileiro, Menez, o Alberto Lacerda, a Paula Rego, entre tantos mais outros, aparecem não exactamente retratados no livro, mas protagonistas de histórias, algumas delas muito divertidas, narradas pelo autor. Estou a adorar o livro (um estilo quase diarístico, Londres, poesia e arte, nomes e lugares que eu conheço…, que mais se pode pedir?).
Mas foi uma história em particular que me fez recordar essa manhã de uma dia tão importante da minha vida (e é curioso como os dias importantes da nossa vida só são importantes vistos à distância do tempo, quando os vivemos são uns dias como outros quaisquer, de esforço quotidiano). Conta LAS que no dia em que a mulher saiu do hospital depois de ter tido o primeiro filho do casal, decidiu poupar ao recém-nascido a viagem de autocarro, e chamou um táxi. Conversaram todo o tempo, sobre as respectivas vidas. No fim da corrida, e depois de terem pago, o motorista saiu do carro e ofereceu uma moeda, quase no valor que tinha recebido, a LAS para começar um mealheiro para o bebé!

É por causa destas histórias, como a que LAS conta e como a que eu vivi, que Londres é uma cidade especial. Dir-se-á que estas histórias não são exclusivas de uma cidade, mas antes aqueles tesouros que o quotidiano nos reserva sem pompas nem grandezas. Mas foi aí que elas foram vividas, e é por isso que, para mim, Londres é, como diz Caetano, um ‘sonho feliz de cidade’
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