March 17th, 2005

rosas

conto: hope there's someone

HOPE THERE'S SOMEONE

para a Sónia

São sete horas de uma manhã gelada de inverno e uma luz branca e baça banha a gare vazia da estação de comboios. A única outra pessoa na plataforma é um palhaço de aspecto exausto, o rosto pintado com duas grossas lágrimas que escorrem pelas faces e pela camisa de listras garridas. Segura uma mala de cabedal, que, apesar de gasta e suja, parece conter todos os seus pertences e todas as suas riquezas. De facto, a mala parece ser uma extensão do braço que a segura, e da mão que aperta a asa com tanta força que os nós dos dedos enluvados ficam retesados e exangues. Pode ser que seja da estranha pintura do rosto, mas o palhaço tem aspecto de quem sempre esteve naquele preciso ponto da plataforma vazia, de quem perdeu o mundo de onde veio e ainda não encontrou a porta de entrada para um outro mundo qualquer, eternamente parado e perdido entre dois comboios. É como se uma tristeza antiga lhe tivesse ficado colada ao rosto e hoje ele já nem se lembrasse da razão dessa tristeza. As lágrimas secaram, mas deixaram o rastro bem marcado. A cabeleira farta e eriçada mantém a memória de que há um momento e uma vontade de pousar a cabeça e descansar, mas é como se se tivesse esquecido, por falta de hábito, de que há essa possibilidade, e que ela se resume a um movimento que ele parece ter apagado por completo. O seu rosto enfarinhado e pálido não tem expressão, só as grossas lágrimas pintadas, e os olhos parados fitam um ponto que não existe, nem dentro nem fora do edifício da estação, talvez só exista no traço de ar rasgado que fica a redemoinhar depois de passar um comboio sem paragem. A camisa berrante do palhaço parece vazia por dentro, como se o tronco que o habita tivesse definhado à espera de um abraço que o cingisse, e do coração não restasse mais do que as cinzas de um fogo que o consumiu há demasiado tempo.

À medida que a manhã se vai desprendendo da linha do horizonte, a estação vai-se enchendo de passageiros que ocupam por completo a plataforma. Ouve-se um silvo, que começa pequeno ao longe, e vai crescendo de proximidade. Um comboio, fogoso, negro e fantasmagórico, entra na gare e os passageiros entram todos nele. O silvo afasta-se agora, desaparecendo na curva da distância. O sol roda veloz pelas aberturas dos telhados da estação, que se enche novamente de passageiros. O ruído dos comboios a chegar e a partir torna-se ritmado, como uma cadência obstinada. A mesma cadência obstinada com que uma multidão cerrada de passageiros enche e esvazia a plataforma, a mesma cadência obstinada com que os raios incandescentes do sol vão rodando pelas aberturas dos telhados da estação, e desenhando brilhos refulgentes e sombras pesadas no chão, nas paredes, nos muros.

Há agora o zumbido surdo e eléctrico e pálido das luzes que prolongam e eternizam o dia na gare da estação. A única outra pessoa na plataforma é ainda o palhaço de aspecto exausto e grossas lágrimas pintadas no rosto, e que segura uma mala de cabedal gasta, suja e vazia.
rosas

jl

O JL comemora esta semana o seu 25º aniversário, com uma edição especial, que inclui um fac-simile do primeiro número do jornal. Nunca fui grande fã do JL, apesar de, no início, o comprar todas as semanas. E mesmo nessa altura, não era forte adepto. Depois, à medida que foram aparecendo alternativas (a Ler, o Mil Folhas), deixei mesmo de comprar com regularidade, apenas quando há uma edição especial ou um tema que me interesse muito. O nome completo do jornal é ‘JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias’, e eu, por chalaça, até brincava que deviam trocar a ordem, de modo a ficar jornal de artes , letras e ideias, o que dava a sigla JALI!
Mas seja coimo for, só há que tirar o chapéu ao JL e ao seu director: 25 anos a fazer um jornal sobre cultura, sobretudo livros, numa terra que tantas vezes e de tantas maneiras, despreza os livros e os escritores, só pode ser alvo de admiração e de encomiásticos parabéns.

Um dos nomes, para mim, mais profundamente ligados ao JL, sobretudo do início, é do Fernando Assis Pacheco, que foi editor do jornal. O FAP é um dos meus escritores favoritos, e já várias vezes tenho falado dele aqui no innersmile, e acho que até já pus poemas dele. Para além da valiosa obra poética, reunida no volume A Musa Irregular, e no póstumo e essencial Respiração Assistida, é autor de dois romances assinaláveis da literatura portuguesa: um, Walt, sobre a guerra colonial, um dos primeiros que se escreveram sobre o tema, aliás, o livro é sobre a guerra do Vietname como metáfora nada subtil da guerra em África. O outro romance é Trabalhos e Paixões de Benito Prada, que, além de outras coisas, é o mais belo romance que tem a cidade de Coimbra por lugar e cenário.
Pois bem, a edição especial dos 25 anos do JL oferece-nos uma verdadeira jóia, o primeiro capítulo (de um total de cinco escritos) de um romance que FAP estaria a escrever na altura da sua morte (a última data aposta no manuscrito é de poucos dias antes da data em que morreu ao entrar, de todos os lugares, numa livraria), e cuja existência era absolutamente desconhecida. É um pedaço breve da prosa rica e saborosa do Fernando Assis Pacheco, que serve para tirar a barriga de misérias, mas que nos deixa cheios de um ‘impreenchido’ desejo por todas as palavras que a morte não deixou o Assis escrever.