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the line of beauty
rosas
innersmile
William Hogarth foi um pintor e gravador inglês que viveu no século XVIII que, para além do seu próprio trabalho artístico, dirigiu uma academia artística que foi percursora da Royal Academy e, nessa qualidade, é considerado um dos mais fortes contributos para aquilo que se pode considerar a escola de pintura inglesa.
A sua grande obra teórica sobre pintura, que está na origem de alguns conceitos contemporâneos de estética, intitula-se The Analysis of Beauty. Um desses conceitos é o da ‘line of beauty’, uma linha que se parece com um S mais esguio e elegante, e que segundo o Hogarth é a linha que caracteriza, de um ponto de vista estético, a vida, por oposição à matéria que não tem vida.

The Line of Beauty é o título do romance escrito por Alan Hollinghurst, com o qual venceu o prémio Booker em 2004, em Inglaterra. A história passa-se nos anos oitenta, em três anos diferentes (83, 86 e 87) e acompanha as aventuras de Nick Guest, um rapaz da província que vai viver para Londres, alugando um quarto na casa de uma antigo colega de Oxford, cujo pai é um destacado membro do parlamento do partido conservador. A relação com o conceito de Hogarth, é que Hollinghurst, ou melhor, Nick, usa-o para descrever a curva harmoniosa onde terminam as costas e começa o rabo. No caso, dos homens, que Guest é um jovem homossexual que o romance acompanha na sua descoberta da sexualidade, num percurso hedonista que começa no romance e termina em viagens de sexo, drogas e belas-artes.
Alan Hollinghurst foi um dos primeiros escritores que eu li, quando, na segunda metade dos anos 80, eu descobri que havia essa coisa chamada literatura gay, através dos dois nomes que para mim ainda são a referência dentro do género: o Edmund White e o David Leavitt (um parêntesis só para mencionar que o Edmund White foi um daquelas descobertas maravilhosas, completamente fruto do acaso, nunca tinha ouvido falar no autor, que na altura já era um nome conhecido, e trouxe um livro de Londres, só por causa da capa e da descrição) .
Esse primeiro livro de Hollinghurst que li foi também o primeiro do autor, publicado em 1988, The Swimming-pool Library, e era uma crónica, que na altura me atraiu, entre outras coisas, por ser muito sexy, desses inícios dos anos 80 em Inglaterra, naquele que foi o último Verão antes da Sida, ou seja, o último Verão que se viveu sem o espectro da epidemia e do contágio através das relações sexuais. Tenho um outro livro dele, The Spell, mas que nunca cheguei a ler.
De certa forma, The Line of Beauty retoma o ponto onde esse primeiro romance tinha ficado, mas é sobretudo uma cónica do tempo. Apesar da grande riqueza da caracterização psicológica das principais personagens, e das peripécias que rodeia, a vida do protagonista, o livro é fundamentalmente um retrato da Inglaterra dos anos de Thatcher, a Inglaterra sob o longo reinado dos Tories, dirigidos pela Dama de Ferro. Aliás, e depois de muita ansiedade, Margaret Tatcher aparece em pessoa no livro, para apanhar uma piela na festa das bodas de prata de Gerald e Rachel, e para dançar uma dança com Nick, sob o olhar invejoso da corte de admiradores.
Hollinghurst escolhe uma perspectiva de dentro: Nick é hóspede (‘guest’) de uma família de conservadores ricos e poderosos, e o romance quase nunca sai desse universo interior e fechado, de uma casa de Kesington Park Gardens e o seu jardim comum fechado. E quando sai, raras vezes é para ouvir o ressoar do mundo lá fora, mas antes para colocar as personagens nessa espécie de circuito elegante, que passa pelas festas nas mansões no campo e pelas férias no sul de França.
O livro tem assim o fôlego dos grandes frescos de época, tendo como referência os romances de Henry James, acerca dos quais Nick anda a fazer uma tese académica. Para quem viveu com alguma intensidade os anos 80, o livro é inegavelmente familiar, mas de uma forma subtil, já que lhe interessam mais os valores e as mentalidades, do que propriamente as mais habituais referências culturais, nomeadamente as ligadas à cultura popular.

Como já referi, o livro estrutura-se em três partes, passadas em 83, 86 e 87, sendo que a do meio é a maior. De certa forma, cada um destes três momentos corresponde a momentos distintos do thatcherianismo, e o último anuncia a decadência. São pouco mais de 100 páginas absolutamente terríveis, em que Hollinghurst traça, sempre vista de dentro e de muito perto, uma daquelas quedas vertiginosas, em que os media (e se o alvo principal são tablóides, a dita imprensa de qualidade também não é poupada) despedaçam uma família num ambiente de escândalo, financeiro e sexual, de caos e destruição. Claro que, no fim, os poderosos aterram sempre de pé, como os gatos, e cabe àqueles que não passam de meros peões a capacidade de avaliarem a situação e prosseguirem, tant bien que mal, com a sua vida.
Alan Hollinghurst não demonstra ternura e consideração pelas suas personagens e pelo seu destino. Antes pelo contrário, e para deixar bem vincada a sua opinião do que foi a Inglaterra dos anos de Thatcher, o seu olhar é tão desapiedado e implacável, que chega a ser arrepiante. E, naturalmente, imprescindível.