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mar adentro
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innersmile
A primeira questão, a propósito de Mar Adentro, é que não se pode ficar indiferente, e ainda menos fugir, ao tema: é um filme sobre a eutanásia, e filma-a pelo lado de dentro, ou seja, pelos olhos de alguém que deseja morrer. Mas mais do que a defesa do direito a morrer com dignidade, o que me parece é que o filme põe no centro do debate a questão da liberdade individual, e de como, em nome dessa liberdade, o Estado (isto é, o ordenamento jurídico) deve permitir ao indivíduo que ele seja ajudado a concretizar esse seu direito à liberdade quando não é capaz de o fazer autonomamente.
Pessoalmente, não consigo ter ideias muito claras e definidas sobre o assunto. Espero que não seja tão depressa que se faça um referendo, pois, neste momento, eu não saberia como votar. Claro, de um ponto de vista digamos político, sou a favor. Na minha opinião, o indivíduo deve sempre sobrepor-se ao colectivo (é por isso que às vezes duvido que seja de esquerda, mas isso é outra história), e por isso o Estado tem de acompanhar o indivíduo até esse limite extremo da sua vontade. Mas por outro lado, e para ser totalmente prosaico, faz-me impressão! Custa-me representar um determinado estado emotivo, não consigo ‘sentir’, pensar com o coração, esse limite, essa extrema, que é auxiliar outro ser humano a morrer. Tento pensar se seria capaz de fazer isso àquelas pessoas que mais amo, e não consigo chegar a uma decisão final tranquila e serena, antes pelo contrário, fico sempre mais aflito e ansioso.

Bom, mas e quanto ao filme? Desde logo dizer que me parece que o filme é sempre mais conseguido, mais eficaz, quando fala da vida do que quando fala da morte. Parece-me que se calhar é um erro achar que este filme é sobre a eutanásia, quando, pelo contrário, me parece que ele é sempre mais esplendoroso quando fala das coisas que Ramon, o personagem inspirado numa pessoa real, ainda tem, apesar de tudo, a seu favor. O filme tem momentos de verdadeiro milagre, em que parece, sobretudo através dos diálogos, que se estão a tocar em coisas essenciais, fundamentais.
De todas as cenas pungentes que o filme tem, a que mais me comoveu, é quando o pai de Ramon diz que pior do que a dor da morte de um filho, é a dor de ter um filho que deseja morrer. E realmente não consigo imaginar situação de maior impotência, de mais desespero, do que essa. E como digo essa é apenas uma de muitas cenas terríveis, em que somos confrontados com aquilo que é mais profundo e misterioso em nós próprios.
O filme é de uma maturidade narrativa superior, aliás só assim se conseguiria fazer um filme tão extremo e que nunca resvala para a lamechice e o sentimentalóide. Mesmo as cenas em que Ramon projecta os seus desejos (sexuais, sentimentais, físicos) são sempre contidas e sérias.
Também não se pode deixar de falar em Javier Bardem. Mar Adentro oferece a um actor o desafio de uma vida, e não deixa de ser significativo que seja precisamente um actor muito físico, um actor corporal, um actor em que o registo da sua representação tem, digamos assim, o peso do seu corpo, a conseguir essa façanha de representar as emoções com o rosto, é certo, mas sobretudo com o peso morto do corpo.

Caraças, vi o filme ontem à noite, e passei o resto da noite e o dia de hoje a pensar que tinha muitas reflexões e muitas coisas a dizer sobre o filme. Mas parece que estou um bocado subjugado e sem conseguir desfazer o fio à meada. Fiquemos, por isso e para já, por aqui.
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