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A primeira nota a propósito de Ray, a bio-pic sobre a vida extraordinária de Ray Charles, tem de ir obrigatoriamente para o Jamie Foxx. Não tanto por causa da emulação perfeita, mas sobretudo porque Foxx consegue, com contenção e subtileza, insuflar o sopro da vida no seu personagem. Ele não está só a fazer de Ray Charles. Ele consegue criar uma personagem em que acreditamos, cujos sonhos e fraquezas partilhamos, e que é Ray Charles. Para aqueles de nós que não conheceram pessoalmente o Ray Charles, que não têm uma memória viva e convivial dele, Ray Charles passa a ser esta criação do Jamie Foxx. E isso é admirável. Ainda por cima, ele nunca deixa de ser o Jamie Foxx, ou seja, não é um daqueles casos em que personalidade do actor se perde totalmente dentro da personagem. Aliás, talvez por isso seja tão eficaz o seu trabalho: como se preserva a personalidade da pessoa real que é o actor, é que a sua criação, o seu faz de conta, consegue ser tão convincente e verdadeiro.
E depois de Jamie Foxx, o que há? Bom, há uma homenagem que me parece ser muito séria e honesta, e, claro, muito celebratória, de um dos grandes músicos do século passado, que teve a vantagem de conseguir fazer com sucesso (ou seja, com resultado e popularidade) o cruzamento de diversos estilos musicais: o gospel, o jazz, a pop, sendo um dos nomes que mais definiram as marcas distintivas do estilo de música chamado rhythm and blues. Mas para além do inegável génio musical, o que torna a personagem de Ray tão exemplar, é o plano humano, o facto de ter conseguido tudo isso ‘against all odds’ (para roubar o título de um filme de Taylor Hackford), desde a infância pobre no sul dos EUA até à voragem letal da toxicodependência, passando, obviamente, pela limitação física da cegueira.
Hackford não é propriamente um dos meus realizadores preferidos, até já houve uma altura em que eu evitava ver os filmes dele. A começar pelo inenarrável Oficial e Cavalheiro, passando pelo já referido Against All Odds, acabando num muito detestável The Devil’s Adocate, que nem a presença de Al Pacino safa. Digamos que nesse aspecto, Ray está alguns pontos acima, não é um filme incómodo de se ver como, para mim claro, foram esses três mencionados. A realização é escorreita, sem grandes rasgos, mas que, apesar de tudo, tem o mérito de nunca roubar o filme àquilo que é essencial, a celebração de Ray Charles. Depois, já não é mérito pequeno ter conseguido sacar o magnífico trabalho de Foxx. Por outro lado, o filme é irrepreensível do ponto de vista musical, apresentando sempre as canções de Ray Charles em todo o seu esplendor, com uma qualidade de gravação impecável, e mais, conseguindo sempre, do ponto de vista narrativo, integrar as canções na própria lógica do filme.
No entanto, o filme é demasiado convencional, falta-lhe o rasgo de génio de Ray Charles, e isso, na minha opinião, torna a sua duração um pouco cansativa. Percebo que num caso destes, em que a matéria é muito rica, é sempre mais difícil deixar de fora do que pôr dentro. Acontece que Hackford não é, nem anda perto, um Martin Scorsese, que consegue fazer uma biopic de 3 horas em que o filme nunca assenta, nunca se arrasta, nunca se entaramela, é sempre levezinho e ligeiro. Este Ray, apesar de mais curto, é mais penoso de se ver, precisamente por ser mais convencional, mais pesado.

Já aqui tenho falado da política de programação do cinema Millenium Avenida, que atira para sessões especiais ao fim da tarde os filmes considerados menos populares, e que são, muitas vezes, aqueles que mais despertam o interesse por serem, por exemplo, de cinematografias mais raras e diferentes. Mas, claro, é sempre possível fazer pior! Ultimamente, começaram a programar dois filmes na mesma sala, em sessões alternadas. Foi assim que passou o mais recente filme de Jeunet, Um Longo Domingo de Noivado, e que, por causa dos horários inóspitos, eu não consegui ver. Agora, o Ray foi um dos filmes mais falados a propósito dos Oscars. É um filme comercial, ou seja, um blockbuster, daqueles que são feitos para vender e fazer muito dinheiro. É um filme de grande público, com o aliciante de ter ganho um oscar para melhor actor! Então, os programadores do Millenium acharam que a melhor maneira de tratar o filme é passar numa única sessão diária, às 18,30 horas, numa sala em que nas restantes sessões passa Vamos Dançar, um filme com a J-Lo e o Richard Gere, que já está em exibição há umas três semanas! Nada contra a J-Lo, claro, apesar de, pessoalmente, achar o Jamie Foxx mais sexy. Mas o filme está em exibição há três semanas! E nem sequer programaram a sessão única do Ray para a sala principal, nada disso, chutaram-no para a sala do sétimo piso, para ver se conseguem destruir ainda mais o filme. Enfim, a única explicação que consigo encontrar para o facto é a de os programadores do Millenium não gostarem de cinema.
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