?

Log in

No account? Create an account

kinsey
rosas
innersmile
Durante muitos anos, eu não conheci outra pessoa que também fosse homossexual. Quer dizer, sabia identificar os cromos e sabia que o eram aquelas figuras públicas que todos sabemos que são. Mas não conhecia ninguém de quem pudesse dizer que era amigo, que partilhasse comigo essa condição, com quem eu pudesse falar, discutir o assunto, comparar as cadernetas. Durante esses anos, eu sabia que era homossexual e a única maneira que eu tinha de racionalizar a questão, de a compreender, de lidar com ela, era através da leitura, da informação, do cinema, do estudo mesmo. Digamos que durante muitos anos eu fui um homossexual em teoria, não praticante. E durante esses tempos agrestes e solitários, muitas vezes o nome de Alfred Kinsey se atravessou no meu caminho, e das mais diversas formas. Por exemplo, um dos meus escritores favoritos, o Samuel Steward (que também dá pelo nome de Phil Andros quando escreve novelas eróticas), relata que durante algum tempo foi colaborador de Kinsey nos estudos e nas experiências que levaram aos célebres relatórios. Uma das primeiras coisas que eu fiz quando tive acesso à internet, foi procurar um site onde pudesse fazer o famoso teste e ver onde é que eu me posicionava na escala de Kinsey. Havia além disso, uma série de referências, desde a tese dos 10% (a percentagens de homossexuais exclusivos) até à própria noção de que graças a Kinsey a homossexualidade tinha sido, pela primeira vez em muito tempo, olhada como uma variação normal da sexualidade humana.

Tinha por isso tudo muita expectativa em ver Kinsey, o filme que Bill Condon fez sobre a vida de AK, e fui vê-lo até com alguma emoção, como se vai para um reencontro, para qualquer coisa que nos estava desde há muito reservada. Condon é um realizador gay, naquele sentido em que é gay e isso nota-se nos filmes que fez. Para além de ter sido o argumentista de Chicago, Condon realizou um filme muito marcante, ao mesmo tempo estranho e fascinante, Gods and Monsters, no qual Ian McKellen deu corpo à figura de James Whale, um mítico realizador de filmes de terror e que foi homossexual assumido e pagou por isso, numa Hollywood ainda muito devedora do segredo e da dissimulação.

Kinsey é uma bio-pic no sentido mais clássico da designação, mas o olhar de Condon sobre a biografia e a obra de Alfred Kinsey é, muito justamente, marcado, ou contaminado, pela sua homossexualidade. Não tanto pelas referências abundantes no filme à homossexualidade, nem sequer pelas cenas raras mas explícitas em que se encena o sexo entre dois homens, mas sobretudo porque o que parece interessar a Condon do trabalho de Kinsey é, em primeiro lugar, essa sagração da diversidade do comportamento sexual humano, da absoluta ausência de uma norma, que apenas existe quando é imposta pela moral, e não pela ciência. De que, à luz da ciência, todas as actividades e comportamentos (quer dizer, todos aqueles que têm na base um pressuposto de livre-arbítrio e consentimento) são equivalentes enquanto manifestações da sexualidade humana. Por outro lado, parece interessar igualmente a Condon a a demonstração de que, mais de meio século depois, as questões ainda são basicamente as mesmas, e se é verdade que o olhar recriminador e ‘desviacionista’ que a sociedade muitas vezes deita em relação aos comportamentos sexuais que fogem à norma heterossexual vigente por vezes parece atenuado e suavizado, na essência pouca cooisa se alterou em relação a esses tempos em que a masturbação era vista como uma aberração e até a existência de mais do que uma posição amorosa era olhada com incredulidade. E ao caricaturar uma certa ingenuidade doentia e primária, e até cómica e ridícula, desses preconceitos em relação a práticas que hoje consideramos usuais, Condon muito eficazmente põe o dedo na ferida em relação a tantos outros preconceitos que ainda hoje persistem no que toca à sexualidade.

Finalmente, parece-me que interessa igualmente a Condon, e até será essa a mensagem final do filme, o facto de que o que interessa, aquilo que é fundamental, aquilo que não se pode medir, como se diz no filme, é o amor. Tudo o resto, é ciência, é observação científica, existe na normalidade da natureza. Não é importante julgarmos as pessoas pela sua sexualidade, onde a diversidade é tão grande que acabamos por ser todos mais ou menos indistintos e iguais. Só o amor nos eleva à condição de indivíduos, de pessoas, ao tornar-nos distintos e únicos aos olhos do outro, de um outro.
Tags:

the nearness of you
rosas
innersmile
Recebi hoje, de Londres, uma prenda que uma amiga me mandou. Um cd da Amália Rodrigues a cantar standards do cancioneiro popular americano. Não é fantástico? Uma rapariga portuguesa passeia por uma rua de Londres, vê um cd que lhe faz lembrar alguém de quem ela só conhece a versão escrita, compra o cd, e toma lá, é teu. Mais do que fantástico, é fabuloso.
Eu sei que tenho de agradecer à Constança. Mas por agora, enquanto oiço baixinho o disco, agradeço antes ao livejournal, que me tem dado prendas tão preciosas, sob a forma de amigos que nos dão a felicidade de existirmos para eles.