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conto: o vira-pautas
rosas
innersmile
O VIRA-PAUTAS

para o Fernando

Sentava-se no banco com as costas muito direitas, mas, aos poucos, o vira-pautas ia perdendo o controlo do seu corpo, e abandonava-o completamente ao êxtase da música. Ao seu lado, o pianista, a estrela da noite, fechava-se num mundo só dele, todo dobrado sobre si e sobre o teclado refulgente do piano, e as suas mãos, nos poucos momentos em que se despegavam das teclas, pareciam borboletas que tacteavam um voo breve por sobre a negritude do casaco, da tampa do piano, do palco.
E então o vira-pautas tomava conta do palco, indiferente ao facto de todos os olhares, de súbito, e à falta de outro motivo de distracção, se concentrarem por completo na sua dança subtil.
Primeiro, era um arquejo das sobrancelhas, a marcar uma nota mais aguda. Ficava ali em cima pelo tempo de uma suspensão, a cabeça parada na ponta do pescoço esticado, como se um pássaro se lembrasse de paralisar o seu movimento durante o voo. Depois, aos poucos, o vira-pautas despedia-se da adolescência, e o seu corpo, ainda mal refeito da surpresa de ter consciência da sua existência física, hesitava entre a livre disponibilidade dos jogos e a madura sensualidade da sedução.
Um movimento quase imperceptível da cabeça, que se levantava do pescoço esticado como a cabeça sempre atenta de uma gazela assustada. A seguir, as costas dobravam-se num lânguido abandono. O vira-pautas parecia inebriado não tanto pela música, como sobretudo pela antecipação que era capaz de adivinhar, lendo os símbolos da pauta, dos movimentos do pianista, do ondular dos seus ombros, do voo picado das mãos, do martelar rasante dos dedos.
A tempos, o vira-pautas recuperava a compostura, reganhava consciência do seu verdadeiro papel, dir-se-ia no mundo, mas na verdade apenas no palco. Levantava-se, e segurando a banda do casaco com uma das mãos, o vira-pautas debruçava-se na perpendicular superior ao teclado, os olhos atentos à passagem das notas pelas linhas do caderno aberto na estante, esticava o braço e virava, suave mas com um gesto preciso, a folha de música.
E voltava a sentar-se, as costas esticadas primeiro, a cabeça a espreitar um horizonte imaginário, depois a curva a acentuar-se, o rosto ao mesmo tempo fechado, para a plateia, mas aberto para as possibilidades quase infinitas que o pianista, executante exímio, abria, não exactamente à sua frente, mas a três quartos. Por vezes, pareciam dançar um pas-de-deux, numa sincronia de recorte quase olímpico, o pianista a balançar o corpo para a frente ou para os lados, e o vira-pautas, adivinhando-lhe os movimentos pela simples leitura dos sinais registados na folha, seguindo-o como um patinador que desliza pelo gelo colado ao seu par.

Apercebendo-se da iminência apoteótica do final da peça em execução, o vira-pautas readquiriu a rigidez da postura, o rosto impassível de atenção e da aguda consciência da total subalternização do seu papel no palco, ao ponto de ser quase uma coisa nula.
O concerto terminou. O pianista, exibindo um cansaço todo feito de entrega e sublimação, agradeceu os aplausos. Atrás do piano, quase cosido ao pano de fundo, o vira-pautas também batia palmas, os olhos felizes postos nas costas do pianista. Seguiu-o, como uma sombra quase inexistente, para fora do palco, mas já não regressou para receber mais aplausos e para um reclamado encore. Perdeu assim, o vira-pautas, a oportunidade de perceber que pelo menos um par de mãos batia palmas à radiante luz do seu rosto jovem.
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